quarta-feira, 10 de setembro de 2014

NATIMORTO

O sol o queima por inteiro. Tinha ainda mais um quarto de légua pela frente. Nívea o esperava de volta. Na última noite, sentira fortes dores e lhe dissera que talvez não passasse daquele dia. Agora, ia à procura da parteira. Não havia outra pessoa.
     João passara a vida inteira tendo certeza de que não nascera para ter mulher em casa, menos ainda criança.
     Logo adiante, no caminho, ele encontrava a tenda do Chico Pedro. Por ali resolveu parar um pouco e beber uns goles de cachaça.
     Voltou com a velha em sua carroça.
     A parteira não disse palavra todo o caminho; ela mesma conduziu a carroça.
     Em casa, ele ficou no pátio.
     Ouviu gritos. Silêncio. Choro.
     A parteira abriu a porta e veio lhe dizer que estava tudo bem. Uma menina.
     Naquela noite, João dormiu na rua. Não queria saber o que se passava lá dentro.
     No dia seguinte, foi no Secos e Molhados do Alemão e bebeu meia garrafa de cachaça.
     Não queria saber o que se passava em sua casa.
     Uma vez ouvira seu pai dizer que preferia que ele tivesse nacido morto.

     Melhor se tivesse nascido morto.
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