quarta-feira, 30 de julho de 2014

A LUZ OSCILANTE

A mãe dela me disse que ela estava de cama. Febre. Não podia me receber. Nem cheguei a passar o portão. Saí e contornei a rua lateral; pelos fundos, fui até a janela do quarto. A veneziana fechada, bati de leve. A insistência foi a minha vitória. Poucos minutos depois, acocorado em baixo da janela, escutei sua voz.
     "Você está louco" ela disse.
     "Venha aqui fora."
     O silêncio me esclarecia tudo. No lusco-fusco ela abriu a veneziana e disse que a mãe não tirava os olhos dela, e logo o pai estaria em casa.
     Num salto, pulei a janela.
     "Coloque o trinque na porta" disse a ela.
     Beijava sem titubear seus pezinhos, seu corpo quente e pálido. A colcha de beija-flores no chão. Quando a porta foi forçada, a noite envolveu-me em sua escuridão.
     Na calçada, sob as luzes fracas e oscilantes, acendi um cigarro.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

HORA DA MADRUGADA

Os animais estavam agitados. Não havia mais nenhuma dúvida para ele, o único modo de livrar-se dela era matando-a.
     O silêncio da casa naquela hora da madrugada não tinha importância. Ele estava sentado junto ao sofá apenas esperando o momento certo.
     Os ruídos dos animais vindos da rua o tranquilizavam. Serviam de conforto. Ela, no quarto, tinha a respiração muito forte. Sempre se queixava do sono difícil e de como ele dormia pouco. Isso o incomodava terrivelmente. Naquele final de tarde, ela dissera: "Você está bêbado..." Não era verdade, estava apenas cansado. E aqueles seus olhos rotos não conseguiam observar a diferença.
     Os animais na rua gemiam como se dissessem: "Jogue-a para nós."
     Nenhuma decisão é tão simples.
     Ao entrar no quarto e vê-la estirada, sentiu pena. Pena de si mesmo por ser tão covarde.