terça-feira, 14 de janeiro de 2014

MENINO PERDIDO

Papai, papai, onde estás indo
Não posso assim correr.
Fala, papai, ao teu filhinho,
Ou hei de me perder,
Não havia pai na noite escura
E a criança se ensopava
De orvalho, lama e pranto, e ao longe
Uma névoa exalava.
O MENININHO PERDIDO – WILLIAM BLAKE


É como um emblema. Uma marca na pele.
     Os plátanos espalhavam suas folhas estelares formando um tapete degradê. Parecia que todo o som em volta estava do lado de fora. Os ráios do sol eram filtrados pelas copas plateiras, e, do outro lado, a plenitude do rio. Não havia horizonte. Não havia semblante. Naquele momento não havia nada.
     Muitos anos mais tarde ele se perguntaria onde estava o pai.
     Então, o som.
     A vergonha.
     A boca muda.
     O corpo ensopado.
     Costumavam brincar sempre de pistoleiros, bandoleiros, xerifes, índios. Sempre havia uma carruagem para assaltar, sempre havia um banco para roubar, sempre havia um saloon, cartas, bebidas e tabaco. Quando acontecia alguma coisa, fugiam para os plátanos. Às vezes para o Alasca. "Ei, William, vamos seguir para o norte, agora." E pegavam os cavalos e cruzavam aquela tênue linha divisória entre o que está dentro e o que está fora. "Ei, William..."
     Naquela época passava-se todo o tempo na rua. Não havia perigo. Então, tudo era permitido. A vergonha, a boca muda, o corpo ensopado.
     Tínhamos pego os cavalos e seguíamos para o norte. John achou que devíamos parar, os cavalos podiam estar cansados, com sede. Ele disse para que o resto do bando fosse na frente. Ninguém entendeu. Ficamos eu e John.
     "Ei, William" ele disse. "Você gosta disso, não?"
     John estava sem camisa. E disse que estava com a bexiga estourando. Aliviou-se.
     "Por que você também não faz?" ele disse.
     Não podíamos deixar os outros seguirem tão na frente; nem podíamos ficar tão para trás, porque os federais nos alcançariam.
     John ficou me olhando, mudo. Fez um sinal com a cabeça.
     Tentei montar no cavalo, mas ele não deixou. Todos sabiam de sua força.
     "Você está sendo burro" ele disse.
     Então, começamos a lutar. A força humana, bruta.