quarta-feira, 19 de novembro de 2014

NOVO NA CIDADE

Ele chegou à cidade não fazia mais de algumas semanas, e logo coseguiu emprego em um supermercado do bairro. Alugava um quarto em cima de um restaurante que servia apenas almoço.
Elisa trabalhava no restaurante. Tinha os cabelos um pouco acima dos ombros, mas sempre os trazia presos em coque dentro de uma touca.
Ela servia o prato, o suco, os talheres... Ele gostava de vê-la movimentando-se. Gostava do sorriso dela, apenas isso.
Na tarde daquele sábado, em que ele estava de folga, haveria uma apresentação na praça da Esplanada comemorando uma data qualquer e as pessoas poderiam se divertir um pouco dançando e comprando coisas numa pequena feira de moradores do bairro mesmo.
Ele circulou perto do palco, pelas bancas da feira, entre as pessoas, identificou várias delas que compravam no supermercado, e logo viu Elisa.
Nunca fora uma pessoa muito educada. Não fora preparado para ser educado. Mesmo assim, tentava. Mas acabava por ser grosseiro muitas vezes, grosseiro igual a suas mãos, ao seu modo de caminhar, igual ao modo como olhava as pessoas.
Elisa estava com um grupo de amigos, e conversavam animadamente, curtindo a música, e o clima da festa. Ela o identificou, cummprimentando-o com um aceno de cabeça.
Ela usava um vestido estampado com flores e os cabelos soltos realçavam o seu rosto.
Ele caminhou mais um tempo até chegar a oportunidade de aproximar-se dela, e os dois conversaram por um tempo, então, ela sugeriu para que caminhassem juntos pela Esplanada, um pouco mais longe do palco e do aglomerado de pessoas.
A noite estava muito clara e a temperatura bastante agradável.
Ela perguntou a ele como era ser novo na cidade... não conhecer ninguém... ela morreria de solidão.
Ele apenas concordou. Os dois ficaram em silêncio; com suas mãos grosseiras, ele a segurou e tentou beijá-la.
Ninguém prestava atenção longe da Esplanada, nem estava tão claro longe da Esplanada.

A cidade é muito grande, quem lembra de alguém novo na cidade?

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

SANDRA

Você deve estar brincando, ela disse.
     Sandra estava tão bêbada que não conseguia levantar a bunda do sofá.
     Eu, em pé, na frente dela, com a calça arriada e o pau de fora, estava pronto para ser chupado.
     Carinhosamente eu disse que bastava chupar, o resto ficava comigo.
     Ela estava com os cabelos um pouco desgrenhados e o esmalte de suas unhas já não estavam mais íntegros.
     Tínhamos bebido muito e ela comumente apanhava do marido. Ela dizia não se importar, no fim das contas ele sempre colocava comida na mesa e o apartamento deles era dele. Ela não tinha pra onde ir. Todo mundo tem de ceder um pouco na vida, não é?
     Com certeza, eu disse.
     Ela segurou o meu pau e começou a chupá-lo. Era a melhor chupada que eu já tive; valia milhões de fodas e aquele filho da puta era um tremendo filho da puta de sorte.
     Caímos os dois no sofá e bebemos até a hora dela ir embora.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

NATIMORTO

O sol o queima por inteiro. Tinha ainda mais um quarto de légua pela frente. Nívea o esperava de volta. Na última noite, sentira fortes dores e lhe dissera que talvez não passasse daquele dia. Agora, ia à procura da parteira. Não havia outra pessoa.
     João passara a vida inteira tendo certeza de que não nascera para ter mulher em casa, menos ainda criança.
     Logo adiante, no caminho, ele encontrava a tenda do Chico Pedro. Por ali resolveu parar um pouco e beber uns goles de cachaça.
     Voltou com a velha em sua carroça.
     A parteira não disse palavra todo o caminho; ela mesma conduziu a carroça.
     Em casa, ele ficou no pátio.
     Ouviu gritos. Silêncio. Choro.
     A parteira abriu a porta e veio lhe dizer que estava tudo bem. Uma menina.
     Naquela noite, João dormiu na rua. Não queria saber o que se passava lá dentro.
     No dia seguinte, foi no Secos e Molhados do Alemão e bebeu meia garrafa de cachaça.
     Não queria saber o que se passava em sua casa.
     Uma vez ouvira seu pai dizer que preferia que ele tivesse nacido morto.

     Melhor se tivesse nascido morto.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

A LUZ OSCILANTE

A mãe dela me disse que ela estava de cama. Febre. Não podia me receber. Nem cheguei a passar o portão. Saí e contornei a rua lateral; pelos fundos, fui até a janela do quarto. A veneziana fechada, bati de leve. A insistência foi a minha vitória. Poucos minutos depois, acocorado em baixo da janela, escutei sua voz.
     "Você está louco" ela disse.
     "Venha aqui fora."
     O silêncio me esclarecia tudo. No lusco-fusco ela abriu a veneziana e disse que a mãe não tirava os olhos dela, e logo o pai estaria em casa.
     Num salto, pulei a janela.
     "Coloque o trinque na porta" disse a ela.
     Beijava sem titubear seus pezinhos, seu corpo quente e pálido. A colcha de beija-flores no chão. Quando a porta foi forçada, a noite envolveu-me em sua escuridão.
     Na calçada, sob as luzes fracas e oscilantes, acendi um cigarro.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

HORA DA MADRUGADA

Os animais estavam agitados. Não havia mais nenhuma dúvida para ele, o único modo de livrar-se dela era matando-a.
     O silêncio da casa naquela hora da madrugada não tinha importância. Ele estava sentado junto ao sofá apenas esperando o momento certo.
     Os ruídos dos animais vindos da rua o tranquilizavam. Serviam de conforto. Ela, no quarto, tinha a respiração muito forte. Sempre se queixava do sono difícil e de como ele dormia pouco. Isso o incomodava terrivelmente. Naquele final de tarde, ela dissera: "Você está bêbado..." Não era verdade, estava apenas cansado. E aqueles seus olhos rotos não conseguiam observar a diferença.
     Os animais na rua gemiam como se dissessem: "Jogue-a para nós."
     Nenhuma decisão é tão simples.
     Ao entrar no quarto e vê-la estirada, sentiu pena. Pena de si mesmo por ser tão covarde.

domingo, 1 de junho de 2014

ELA

Deitado na cama, sentia-se doente. No fundo, tinha vontade de morrer. Há quantos dias não recebia a visita dela? Finalmente escutou a campainha. Ela trazia junto a filha. As duas eram lindas. A menina tinha uns oito anos e os mesmos traços, as mesmas angulações da mãe. Na sala, ficou vendo tv.
     "Pensei que você não viria mais" ele disse, fechando a porta do quarto.
     A mulher tirou os sapatos e empurrou-o na cama.
     Ela havia prometido não mais voltar ali. Mas, abraçada em seu pescoço, beijou-o cegamente.
     Ele teve de tapar-lhe a boca para que a menina não a escutasse da sala.
     Deitada em seu braço, disse que o amava.
     Antes de sair do quarto, arrumou os cabelos e o batom.
     Na sala, a menina dormia no sofá.
     "Às vezes ela me assusta" disse, acordando-a.
     Ele ficou parado na porta do quarto, fumando.
     As duas saíram, a menina ainda olhou-o, mas ela, não.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O CASAL DE VELHOS


Eles moravam naquela rua havia mais de trinta anos. Foi a primeira e única residência. Nunca tiveram filhos. Durante alguns anos ajudaram a criar uma sobrinha, a Aninha. Dos sete aos doze. Sofreram muito quando ela foi embora.
     A casa ficava nas Araucárias, no bairro da Vila Velha. Era um dos poucos bairros que ainda conservava apenas casas. No início era classe média, depois tudo ficou meio confuso. A vida mudou demais naqueles trinta anos.
     Na hora da janta,sempre o noticiário.
     Comiam em silêncio.
     Na rua, quem passava ao pé da casa, podia escutar o som da tv.
     Não escutaram o bater na porta. E não houve insistência. Quando viram, já era tarde demais.

     O noticiário apenas disse: Um casal de velhos...
Parado aqui
vejo apenas uma linha, quase sumida,
sobre as casas.

Daqui,
guardo cada passo teu

Guardo cada parte tua
cada lado bom.

terça-feira, 1 de abril de 2014

ARCELIA

    Quando criança, pensava ser uma princesa; agora, em um set de filmagens improvisado, sentia o maior pênis que já vira em sua vida penetrá-la destruindo-a por dentro. Uma câmera filmava seu rosto em close-up, outra os movimentos do pênis em seu ânus e outra os dois na cama. Não havia pausa, apenas uma tomada sem cortes. Recebera um bom valor para isso. O homem atrás das câmeras lhe dissera para não gritar, não gemer alto demais, não precisava esconder a dor, podia mostrar um pouco mais de dor se fosse preciso, mas sem escândalos.
    Arcelia apertava firme entre os dedos o lençol. Os dentes, um pouco irregulares, cerravam-se com tanta força que pareciam prestes a quebrarem, então, o homem atrás das câmeras mandou-a sorrir um pouco, demonstrar um pouco mais de prazer, pense no dinheiro, ele disse.

    Arcelia fechou os olhos e sorriu.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

MENINO PERDIDO

Papai, papai, onde estás indo
Não posso assim correr.
Fala, papai, ao teu filhinho,
Ou hei de me perder,
Não havia pai na noite escura
E a criança se ensopava
De orvalho, lama e pranto, e ao longe
Uma névoa exalava.
O MENININHO PERDIDO – WILLIAM BLAKE


É como um emblema. Uma marca na pele.
     Os plátanos espalhavam suas folhas estelares formando um tapete degradê. Parecia que todo o som em volta estava do lado de fora. Os ráios do sol eram filtrados pelas copas plateiras, e, do outro lado, a plenitude do rio. Não havia horizonte. Não havia semblante. Naquele momento não havia nada.
     Muitos anos mais tarde ele se perguntaria onde estava o pai.
     Então, o som.
     A vergonha.
     A boca muda.
     O corpo ensopado.
     Costumavam brincar sempre de pistoleiros, bandoleiros, xerifes, índios. Sempre havia uma carruagem para assaltar, sempre havia um banco para roubar, sempre havia um saloon, cartas, bebidas e tabaco. Quando acontecia alguma coisa, fugiam para os plátanos. Às vezes para o Alasca. "Ei, William, vamos seguir para o norte, agora." E pegavam os cavalos e cruzavam aquela tênue linha divisória entre o que está dentro e o que está fora. "Ei, William..."
     Naquela época passava-se todo o tempo na rua. Não havia perigo. Então, tudo era permitido. A vergonha, a boca muda, o corpo ensopado.
     Tínhamos pego os cavalos e seguíamos para o norte. John achou que devíamos parar, os cavalos podiam estar cansados, com sede. Ele disse para que o resto do bando fosse na frente. Ninguém entendeu. Ficamos eu e John.
     "Ei, William" ele disse. "Você gosta disso, não?"
     John estava sem camisa. E disse que estava com a bexiga estourando. Aliviou-se.
     "Por que você também não faz?" ele disse.
     Não podíamos deixar os outros seguirem tão na frente; nem podíamos ficar tão para trás, porque os federais nos alcançariam.
     John ficou me olhando, mudo. Fez um sinal com a cabeça.
     Tentei montar no cavalo, mas ele não deixou. Todos sabiam de sua força.
     "Você está sendo burro" ele disse.
     Então, começamos a lutar. A força humana, bruta.