sábado, 30 de março de 2013

JANIS JOPLIN


Eu a conhecia de vista. Ela sempre estava na volta da parada do ônibus no horário que eu ia embora. Era um movimento danado de carros e pessoas. Do outro lado da rua havia uma praça, e uma cancha de bocha, às vezes ela vinha dali, da praça.
Para algumas pessoas na parada do ônibus ela pedia um cigarro, ou simplesmente dizia algo. Nunca se aproximou de mim. Nunca me olhou. Tinha algumas tatuagens nas mãos e nos braços e sempre usava vestido meio hippie, e colares, e enfeites nos cabelos... Nunca tinha reparado o quanto sua pele era clara, então, ela se aproximou de mim e disse, sem me olhar: ─ Nunca pensei que um dia eu ia querer voltar a Port Arthur...
Tinha uma rizada rouca, estridente, e seguiu devagar, fumando.
Do ônibus tentei vê-la na calçada, mas tinha desaparecido.
Uns dias depois  ela parou ao meu lado e disse, Cara, eu preciso ir embora. Eu tenho uma vizinha que fica com todos os carinhas que eu levo pro meu apartamento... Então um dia eu fiquei pensando qual a diferença entre nós duas... Ela dorme à noite, e eu durmo de dia...
Não sei quanto tempo levou para que eu tomasse coragem para lhe perguntar o seu nome.
─ Janis ─ ela disse.
Naquele dia ela usava uma blusa de linho e uma calça verde.
─ Não sei se fiz uma boa escolha ─ ela disse.
Os olhos dela eram azuis, mas estavam tão pequenos...
─ Outro dia você falou em Port Arthur ─ eu disse.
Ela estava parada ao meu lado e algumas pessoas saíram de perto porque ela estava um pouco suja.
─ Cara, eu odiava aquele lugar, mas hoje eu sinto um pouco de saudade, acredita?
─ Há quanto tempo você está aqui?
Ela fechou um dos olhos, deu um sorriso, fechou a mão direita e começou a levantar os dedos, um por um, e começou a rir...
─ Muito tempo, cara...
Ela se afastou um pouco de mim e depois voltou:
─ Lá, ninguém sente a minha falta...
Então eu perguntei a ela onde ficava Port Arthur, e ela me olhou com uma cara de ironia e disse que não acreditava que não sabia onde ficava.
─ Você está por fora, hein?
Olhei para o chão e para um ônibus que vinha.
─ Já ouviu falar do Texas? ─ ela disse.
Ficamos nos olhando alguns segundos e eu disse, então: ─ É muito longe...
─ Qualquer lugar é longe daqui, cara...
O meu ônibus parou e eu embarquei.
No fim de semana voltei naquele ponto de ônibus, esperei alguns minutos e depois fui para a praça e vi uns senhores jogar bocha, e uns casais de namorados debaixo da figueira, e então fui embora.
Passei a ficar muito tempo naquela parada de ônibus e frequentemente me pegava repetindo: “Senhoras e senhores, Janis Joplin!!”
Os ônibus não paravam mais para mim.