sábado, 23 de fevereiro de 2013

INTRUSOS


Chegávamos ao acampamento após viagem de treze dias. A exaustão tomava conta de todos.
─ Vocês estão vendo?
Anselmo caminhava à frente. Nos fez um sinal para que parássemos. Aquela visão era espantosamente linda. Depois de tantos dias no meio da selva, a clareira, e aqueles nativos, nus, pintados, vivendo. O chão ocre combinava com eles e com a grande oca.
A nossa imobilidade tomou conta deles.
Talvez o nosso medo tivesse tomado conta deles.
Anselmo, com o braço erguido, continuou olhando para eles. Alguns segundos depois eles vieram; à distancia segura, diziam coisas, e gesticulavam.
─ Fiquem quietos ─ nos disse Anselmo.
Então, aproximaram-se até nos tocar. De modo admirável, curiosidade desconfiada. O homem que tocou meu rosto e pegou minha barba, tinha um cheiro muito forte, cheiro de terra, de peixe, de tinta, de natureza.
Anselmo disse alguma coisa para eles. E disse novamente de outro modo.
─ Eles não entendem o que digo nem eu entendo o que eles falam.
As mulheres tinham ficado separadas, longe de todos; junto, as crianças.
Estávamos muito nervosos, meu corpo tremia. Por um longo momento não tínhamos certeza de absolutamente nada.
─ O que vamos fazer? ─ perguntei a Anselmo.
Um dos nativo correu pelo meio de todos até chegar a Anselmo, e feri-lo mortalmente. Vimos Anselmo caído na terra com a lança cravada no pescoço. Teve início uma gritaria que fez polvorosa na floresta. Era como se os animais respondessem àquele ato. Não tínhamos o direito de estar ali. Aquela lança engasgada em Anselmo escrevia as palavras gigantes no ar: INTRUSOS.
O homem que cometera o ato mostrava-se impávido e indefectível em sua atitude. Retirou a lança de Anselmo e procurou, resignado, outro entre nós.
Demo-nos as mãos e rezamos de olhos fechados.