sábado, 2 de novembro de 2013

UM DIA MUITO CLARO

Segurou-a firme no pescoço, comprimindo seu corpo contra a parede. Ela tentava fechar os olhos, mas não conseguia. Começou a sentir o corpo amolecer... Ele a jogou na cama com tanta força que ela foi parar no chão, e escutou o estrondo da cabeça e um murmúrio. Rapidamente ele despiu as calças e começou a fornicá-la enquanto continuava a esganadura. Pentrou-a pela frente, por trás, no chão e na cama.
O dia estava muito claro, a luz invadia o quarto mesmo estando as cortinas bem fechadas. Os dois ficaram por vários minutos deitados lado a lado em silêncio. Ela tinha ficado com as marcas da esganadura no pescoço, algo muito feio. Levantou-se, tomou um banho, colocou uma echarpe no pescoço e foi embora.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

SONHO PROFUNDO


I never dreamed the sea so deep,
The earth so dark; so long my sleep,
I have become another child.
I wake to see the world go wild.”

An Eastern Ballad – Allen Ginsberg








Estavam sem cigarros. Os dois tinham bebido tudo o que havia em casa, e ela dissera que iria ao bar comprar cigarros e mais bebida. “Fique onde você está”, ela disse. E saiu. Ele, completamente bêbado, ficou deitado no sofá, esperando. Acordou-se já passando da uma da tarde, e o sol quente e forte. Ela não estava lá. “Arlene!” chamou duas ou três vezes. Levantou-se cambaleando e, no banheiro, ao lavar o rosto, viu que sua aparência estava realmente uma bosta. Desgrenhado, barbudo... a cara inchada. Encheu as mãos com água e bebeu. Pro inferno, aquilo parecia bom. “Você deve estar de brincadeira”, disse em voz baixa. Precisava comprar mais bebida e cigarros. No bar, do meio da quadra, ficou sabendo que Arlene fora atropelada na outra noite. Não conseguia acreditar. Encostou-se no balcão, fumou um cigarro, bebeu uma cerveja... e aquela droga de vazio no peito, a vontade de gritar.

domingo, 14 de julho de 2013

A MORTE DE BILLY

Então, conseguimos encurralá-lo no fim do desfiladeiro San Antonio. Começava a anoitecer e isso não me agradava. Ele era muito esperto e eu precisava pegá-lo rapidamente. Foi quando o surpreendi deitado entre um arbusto e uma pedra oval quase do tamanho de seu corpo.
       "Baby Sue vai sentir sua falta" eu disse a ele.
        Billy levou um susto e virou-se rápido, pronto para me matar. Atirei duas vezes; dois tiros à queima-roupa no peito. Deixou o colt cair ao lado do corpo.
       "Baby Sue..." ele disse. Logo começou a sangrar pela boca, e estava morto.
       Todos os homens correram e alguns gritavam que eu o tinha matado. Naquele momento em que o olhava ali, estirado aos meus pés, não senti nenhuma glória. Ele me pareceu apenas mais um fora-da-lei morto, mais um pistoleiro que passara a vida toda jogando.
       Foi Cody quem o colocou no lombo do cavalo. Já estava noite e seus braços pendiam, balançando. Sua roupa estava bastante suja e rasgada. Ele não passava de um maltrapilho.
       Na cidade, ao vê-lo, todos fizeram silêncio, não em respeito, mas com receio de que ele não estivesse morto de fato.
       Toda aquela noite eu passei bebendo. O sol não me trouxe nenhuma esperança. Eu estava com trinta, talvez chegasse aos cinquenta. Quem se importava?

sábado, 30 de março de 2013

JANIS JOPLIN


Eu a conhecia de vista. Ela sempre estava na volta da parada do ônibus no horário que eu ia embora. Era um movimento danado de carros e pessoas. Do outro lado da rua havia uma praça, e uma cancha de bocha, às vezes ela vinha dali, da praça.
Para algumas pessoas na parada do ônibus ela pedia um cigarro, ou simplesmente dizia algo. Nunca se aproximou de mim. Nunca me olhou. Tinha algumas tatuagens nas mãos e nos braços e sempre usava vestido meio hippie, e colares, e enfeites nos cabelos... Nunca tinha reparado o quanto sua pele era clara, então, ela se aproximou de mim e disse, sem me olhar: ─ Nunca pensei que um dia eu ia querer voltar a Port Arthur...
Tinha uma rizada rouca, estridente, e seguiu devagar, fumando.
Do ônibus tentei vê-la na calçada, mas tinha desaparecido.
Uns dias depois  ela parou ao meu lado e disse, Cara, eu preciso ir embora. Eu tenho uma vizinha que fica com todos os carinhas que eu levo pro meu apartamento... Então um dia eu fiquei pensando qual a diferença entre nós duas... Ela dorme à noite, e eu durmo de dia...
Não sei quanto tempo levou para que eu tomasse coragem para lhe perguntar o seu nome.
─ Janis ─ ela disse.
Naquele dia ela usava uma blusa de linho e uma calça verde.
─ Não sei se fiz uma boa escolha ─ ela disse.
Os olhos dela eram azuis, mas estavam tão pequenos...
─ Outro dia você falou em Port Arthur ─ eu disse.
Ela estava parada ao meu lado e algumas pessoas saíram de perto porque ela estava um pouco suja.
─ Cara, eu odiava aquele lugar, mas hoje eu sinto um pouco de saudade, acredita?
─ Há quanto tempo você está aqui?
Ela fechou um dos olhos, deu um sorriso, fechou a mão direita e começou a levantar os dedos, um por um, e começou a rir...
─ Muito tempo, cara...
Ela se afastou um pouco de mim e depois voltou:
─ Lá, ninguém sente a minha falta...
Então eu perguntei a ela onde ficava Port Arthur, e ela me olhou com uma cara de ironia e disse que não acreditava que não sabia onde ficava.
─ Você está por fora, hein?
Olhei para o chão e para um ônibus que vinha.
─ Já ouviu falar do Texas? ─ ela disse.
Ficamos nos olhando alguns segundos e eu disse, então: ─ É muito longe...
─ Qualquer lugar é longe daqui, cara...
O meu ônibus parou e eu embarquei.
No fim de semana voltei naquele ponto de ônibus, esperei alguns minutos e depois fui para a praça e vi uns senhores jogar bocha, e uns casais de namorados debaixo da figueira, e então fui embora.
Passei a ficar muito tempo naquela parada de ônibus e frequentemente me pegava repetindo: “Senhoras e senhores, Janis Joplin!!”
Os ônibus não paravam mais para mim.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

INTRUSOS


Chegávamos ao acampamento após viagem de treze dias. A exaustão tomava conta de todos.
─ Vocês estão vendo?
Anselmo caminhava à frente. Nos fez um sinal para que parássemos. Aquela visão era espantosamente linda. Depois de tantos dias no meio da selva, a clareira, e aqueles nativos, nus, pintados, vivendo. O chão ocre combinava com eles e com a grande oca.
A nossa imobilidade tomou conta deles.
Talvez o nosso medo tivesse tomado conta deles.
Anselmo, com o braço erguido, continuou olhando para eles. Alguns segundos depois eles vieram; à distancia segura, diziam coisas, e gesticulavam.
─ Fiquem quietos ─ nos disse Anselmo.
Então, aproximaram-se até nos tocar. De modo admirável, curiosidade desconfiada. O homem que tocou meu rosto e pegou minha barba, tinha um cheiro muito forte, cheiro de terra, de peixe, de tinta, de natureza.
Anselmo disse alguma coisa para eles. E disse novamente de outro modo.
─ Eles não entendem o que digo nem eu entendo o que eles falam.
As mulheres tinham ficado separadas, longe de todos; junto, as crianças.
Estávamos muito nervosos, meu corpo tremia. Por um longo momento não tínhamos certeza de absolutamente nada.
─ O que vamos fazer? ─ perguntei a Anselmo.
Um dos nativo correu pelo meio de todos até chegar a Anselmo, e feri-lo mortalmente. Vimos Anselmo caído na terra com a lança cravada no pescoço. Teve início uma gritaria que fez polvorosa na floresta. Era como se os animais respondessem àquele ato. Não tínhamos o direito de estar ali. Aquela lança engasgada em Anselmo escrevia as palavras gigantes no ar: INTRUSOS.
O homem que cometera o ato mostrava-se impávido e indefectível em sua atitude. Retirou a lança de Anselmo e procurou, resignado, outro entre nós.
Demo-nos as mãos e rezamos de olhos fechados.