segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

OLHOS ABERTOS

Os dois tinham andado por todo o Mercado Público. Calados, olharam as capas do discos de vinil, observaram as pessoas e as bancas, e beberam uma cerveja antes de sair. O nome do motel era Coração Perpétuo. O sexo levou vinte minutos.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

MARDI

O calor insuportável. Mardi arrumava os cabelos enquanto bebia um copo de refrigerante com gelo. Trabalhava em uma lanchonete à noite havia duas semanas. Tedi havia ido embora pouco antes dela conseguir aquele emprego. Quando ficou sabendo, ele disse: — Você deve estar maluca mesmo...
Mardi não respondeu. Ele ainda disse muitas outras coisas. Dizia com enorme prazer que ela jamais conseguiria viver sem ele para lhe sustentar. Disse, ainda: — Qual homem vai querer... vai conseguir ir para cama com você? Depois, sempre dizia que ela estava um lixo.
Quando Tedi foi embora, ele disse que ela podia ficar com tudo da casa, e com a infelicidade e a solidão também.
Mas na lanchonete as pessoas a receberam bem, conversavam com ela, respeitavam-na.
Mardi não queria arrumar mais niguém para viver com ela. Ia se acostumando com o horário novo, fazia fácil o serviço, e todos dividiam o quebra do caixa no final do turno. Um ou outro homem, eventualmente, lhe fazia uma gracinha, mas ela não dava bola. Apenas era simpática e fazia o seu trabalho.
Naquela noite, enquanto lavava alguns copos, pratos e talheres, escutou uma voz diferente entre as que estavam no ar.
— Ei, tire os olhos dessa bunda, cara... ela tem dono.
Mardi escutou isso sem se virar. Não acreditava que Tedi estivesse ali e fosse arrumar confusão. Virou-se e viu o homem pegar a cerveja e sair do balcão. Tedi estava sorridente. Mardi secou as mãos e saiu por uma portinha lateral. Sentiu tanta tristeza e medo que ficou paralizada.
Uma de suas colegas foi lhe falar e logo escutaram alguns gritos, e o Tedi chamando por seu nome, depois de cadela-vagabunda. Logo deram um jeito de fazê-lo sair e a lanchonete voltou ao normal.
Mardi continuou a lavar os copos, e os pratos, e os talheres. Logo em seguida, escutou um dos homens dizer: — Com um rabo desses só pode dar confusão mesmo....
Ela passou o resto do tempo lavando a louça, e chorando.
Quando chegou em casa, a porta estava aberta e havia muita bagunça, muitos objetos quebrados, o sofá rasgado e suas roupas espalhadas pela casa.
Mardi sentiu-se triste, mas alviada. Finalmente aquele lugar era apenas seu.