segunda-feira, 21 de maio de 2012

O CASULO

Agora eu não reconheço nada. Todas as coisas são novas. As pessoas dizem que sabem quem eu sou. Eu apenas sinto vontade de caminhar. Meus pés têm as solas grossas e ásperas. Parece que caminhei descalço a vida inteira. Acho que tenho uns trinta anos. A médica me olha como se fosse tudo mentira. Depois, posso circular pelo pátio. Al-gumas pessoas vêm me visitar e choram, tentam pegar minhas mãos e então os cari-nhas me levam e fico o resto do dia deitado, sonhando. Sempre tem alguém que grita, diz muitas coisas, e logo tudo fica calmo. No pátio, as árvores são muito velhas, tudo aqui parece muito velho, meus sapatos são muito velhos, e tudo tem aquele cheiro de azedo que nem me importo; o Pedro é quem dizia, a loucura é nossa amiga, você en-tende, não? As minhas mãos tremem. Todo o espaço tem um limite, alguns conse-guem ultrapassar e pedem aos transeuntes qualquer coisa, cigarros, moedas, palavras, olhares, conforto. Então, têm de voltar. Eu fico aqui; às vezes me pego contando des-propositadamente as pedras, e a grama, e as vozes. As borboletas ainda serão nossas amigas, eu disse à médica. Você acha? ela me perguntou. Acho. O casulo, eu tenho um escondido. Ninguém me tira o casulo. A melhor parte é que ninguém acredita; todos acreditam na loucura.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

NESSAS TERRAS ...

Quase moribundos, escutávamos os cães; não conseguíamos mais seguir adiante. Foi Iuri quem primeiro sugeriu para que desistíssemos. Ele dizia que estávamos perdendo tempo, logo nos alcançariam. Não havia passado um mês de nossa chegada ali. Nunca pensamos que seríamos derrotados pelo inverno, o frio intenso, o vento cortante. Já sabíamos que aquele lugar estava repleto de pessoas com hábitos ainda selvagens, valores que havia muito tí-nhamos perdido. Um lugar onde o mais importante é o seu cavalo... Aos poucos fomos desistindo... até os cães nos alcançar, famintos, perniciosos… Tinha razão o Iuri: eram selvagens.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

OLHOS ABERTOS

Os dois tinham andado por todo o Mercado Público. Calados, olharam as capas do discos de vinil, observaram as pessoas e as bancas, e beberam uma cerveja antes de sair. O nome do motel era Coração Perpétuo. O sexo levou vinte minutos.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

MARDI

O calor insuportável. Mardi arrumava os cabelos enquanto bebia um copo de refrigerante com gelo. Trabalhava em uma lanchonete à noite havia duas semanas. Tedi havia ido embora pouco antes dela conseguir aquele emprego. Quando ficou sabendo, ele disse: — Você deve estar maluca mesmo...
Mardi não respondeu. Ele ainda disse muitas outras coisas. Dizia com enorme prazer que ela jamais conseguiria viver sem ele para lhe sustentar. Disse, ainda: — Qual homem vai querer... vai conseguir ir para cama com você? Depois, sempre dizia que ela estava um lixo.
Quando Tedi foi embora, ele disse que ela podia ficar com tudo da casa, e com a infelicidade e a solidão também.
Mas na lanchonete as pessoas a receberam bem, conversavam com ela, respeitavam-na.
Mardi não queria arrumar mais niguém para viver com ela. Ia se acostumando com o horário novo, fazia fácil o serviço, e todos dividiam o quebra do caixa no final do turno. Um ou outro homem, eventualmente, lhe fazia uma gracinha, mas ela não dava bola. Apenas era simpática e fazia o seu trabalho.
Naquela noite, enquanto lavava alguns copos, pratos e talheres, escutou uma voz diferente entre as que estavam no ar.
— Ei, tire os olhos dessa bunda, cara... ela tem dono.
Mardi escutou isso sem se virar. Não acreditava que Tedi estivesse ali e fosse arrumar confusão. Virou-se e viu o homem pegar a cerveja e sair do balcão. Tedi estava sorridente. Mardi secou as mãos e saiu por uma portinha lateral. Sentiu tanta tristeza e medo que ficou paralizada.
Uma de suas colegas foi lhe falar e logo escutaram alguns gritos, e o Tedi chamando por seu nome, depois de cadela-vagabunda. Logo deram um jeito de fazê-lo sair e a lanchonete voltou ao normal.
Mardi continuou a lavar os copos, e os pratos, e os talheres. Logo em seguida, escutou um dos homens dizer: — Com um rabo desses só pode dar confusão mesmo....
Ela passou o resto do tempo lavando a louça, e chorando.
Quando chegou em casa, a porta estava aberta e havia muita bagunça, muitos objetos quebrados, o sofá rasgado e suas roupas espalhadas pela casa.
Mardi sentiu-se triste, mas alviada. Finalmente aquele lugar era apenas seu.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

ADELA

Tinha separado uma garrafa de cerveja e deitou-se na piscina de 1000 litros montada no fundo do pátio. Estava anoitecendo e seria mais uma noite estrelada e tão quente quanto fora o dia. Aquilo era a única coisa que valia à pena, chegar em casa e refrescar-se bebendo uma cerveja.
Fazia pouco mais de um mês que Adela fora embora; ainda havia alguns coisas dela na casa. Na verdade, aquela piscina era dela. Depois de beber a cerveja, saiu da piscina e foi conferir os objetos que ela deixara. Estavam lá. Pegou outra cerveja e voltou para a piscina. Na última noite, acordou no meio da madrugada, bêbado na piscina. Depois, procurou algumas fotos, e molhou a casa e a cama. Acordou-se com o despertador às 7:00 h.
O casamento deles havia durado cinco anos.
— Foi tudo um erro — ela disse.
Saiu da piscina, pegou um saco de lixo grande e foi juntar todas as coisas que restavam de Adela na casa. Voltou para a piscina, deixando o saco ao seu lado. Sentia muita falta do sexo com ela. Tinha sido a melhor mulher que conhecera na cama. Às vezes, parecia que o sexo não teria limites. Era como se fechassem os olhos e a humanidade aceitasse que tudo era sexo, sem culpa, sem medo, sem nojo. Da última vez ela lhe dissera: — Você é a melhor foda, sabia?
Adela era mais velha do que ele. Tinha mais amigos do que ele. Tinha mais conhecimento do que ele. E sabia foder melhor do que ele.
Abriu a geladeira, precisava comprar mais cerveja. Pegou o dinheiro, mais três garrafas e foi até o mercado. Não havia ninguém, além dele, comprando. Era quase dez da noite. Pagou, saiu, na calçada sentiu-se mal. Sua cabeça parecia girar, suas pernas ficaram fracas, e sentiu náusea.
Deitou-se novamente na piscina, abriu uma garrafa de cerveja e começou a beber. O céu estrelado realmente o tranquilizava...

domingo, 15 de janeiro de 2012

LIMITE

Você não fala mais comigo. Esse é o problema, na verdade é o meu problema. As pessoas me olham e eu não tenho coragem para dizer o que se passa em minha cabeça; ninguém aguentaria. Então, você me diz que os dias estão mais dificeis, que isso tudo está se transformando em um pesadelo...
— O que você quer de mim? — ela diz.
Meus lábios estão costurados. Os meus olhos, vidrados e todos os dias eu me pergunto quando vou sair desse inferno, desse vazio.