sexta-feira, 14 de outubro de 2011

SWEET HELL

Havia pouco mais de uma semana que ela voltara a morar com eles. Tinha sua própria cama e seu próprio quarto. Antigamente, precisava dividí-lo com os irmãos mais velhos.
Procurava todas as noite, antes de dormir, achar letras para colocar em seu diário. Elas iam se agrupando como desconhecidas-desconfiadas e formavam estranhas palavras, orações quase incompreenssíveis, frases e parágrafos desalinhados.
O diária era fechado à chave e logo na primeira página ela pedia a quem, por ventura, em acidente, o encontrásse, mantivesse segredo.
No meio do diário ela guardava uma foto recortada de uma revista, a pessoa, ela não sabia quem era, e dizia: Lydia, the tatooed lady. Mostrava uma loira, cabelos ondulados caindo pelos ombros, usava apenas soutien e tinha todo o corpo tatuado.
Ela guardara a foto por causa das tatuagens e porque também se chamava Lídia.
Lídia pegou uma canetinha hidrocor e começou a desenhar nomes de pessoas nos braços, fez todos os que lembrava. Na barriga e no peito, desenhou pessoas fazendo sexo, e pênis e vaginas, e colocou uma legenda, Na barragem.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

...

não te quero mais;
não quero mais desejar a tua boca e o teu corpo e o
teu sexo

não quero mais sentir
a ardência do amor
em meu peito
sem os teus olhos nos meus

não te quero mais;

escuta, escuta, escuta
mil vezes:
eu te
amo..................................................................
......................................................................
.......................................................................

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A FUGA

Sem pensar duas vezes, juntou todas as roupas que pode e foi, determinado, até a porta da frente. Para trás havia ficado uma meia, um calção do Inter e um lenço. Em sua determiação não voltaria para juntar as peças perdidas.
Seu rosto estava molhado de lágrimas e sentia-se a pessoa mais triste do mundo mesmo sem saber o que estava sentindo. Traído. Iria embora para morar em qualquer parte. Qualquer lugar seria melhor.
O pai ficou parado no meio da sala, olhando-o, sério. Depois, juntou as três peças e abaixou-se, ficando na altura dele.
Ele, ainda choroso, correu para os braços do pai, mas exigiu que a mãe fosse apenas namorada dele.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

TONINHO

Toninho já estava pronto havia mais de hora. Ele não queria ir. Calçava seu único par de tênis, sua calça de brim e uma camisa branca com pequenos desenhos de âncoras. Ninguém lhe dizia absolutamente nada. Nem o por quê daquilo ter acontecido, e, às vezes, ele se perguntava como podia gostar de alguém que ninguém gostava.
Seu pai tinha um velho fusca bege com estofamento negro. O rádio não funcionava e foram apenas escutando o som quase ensurdecedor do fusca.
Nas últimas doze horas Toninho acompanhou a maratona de sua mãe à procura de uma capela e toda aquela negociação com as funerárias. E ninguém falava o quanto sentiam pelo Velho.
O Velho estivera internado no Hospital do Sagrado Coração por quase uma semana, e Toninho não fora levado uma única vez para vê-lo; nesses dias, Toninho escutou antigos adjetivos sobre o Velho: o Bêbado: o Inútil: o Gigolô etc. Eles não faziam a mínima idéia de como tudo aquilo o magoava. O Velho era seu único avô e por mais que todos o odiassem, e o Velho odiava a todos, por algum motivo o Velho gostava dele...
Da capela podia-se ver o Guaíba... no final daquela manhã ele mostrava-se brilhante e parado. Eram os primeiros dias da primavera... na capela, poucas pessoas: dois irmãos do Velho, três filhos dos sete que tivera, e ele, Toninho.
Toninho sentiu medo e um enorme buraco no peito que parecia comprimir o estômago. Por quê? Por que o trouxeram ali? Ele queria ir embora, não queria vê-lo morto.
Aproximou-se do esquife sem olhá-lo. Percebeu que ninguém chorava, apenas ele. Sentou-se ali, no chão, e não conseguia para de chorar...
Foi tia Ana quem o tirou de lá, levando-o para casa.
O esquife, disseram, era o mais barato, do mesmo modo que a coroa de flores. Logo depois de colocá-lo na parede, cada um foi para o seu lado, aliviados daquela situação.