quinta-feira, 7 de julho de 2011

A SANGA

Um dia de sol. As ruas desertas. Jaques seguia à frente, também ele estava armado com uma faca que tinha sido de seu pai. Já fôramos tantas vezes até aquela sanga mas... Não conseguíamos falar, nem nos olhávamos. Nossa solidariedade a Jaques se mostrava cega. Tão cega quanto ele em sua decisão. Éramos amigos. Morávamos naquele lugar desde sempre.
Próximos da sanga, paramos. O sol queimava nossa pele; a terra, fervia. Eles estavam deitados na sanga. Jaques nos olhou e fez um sinal para esperarmos. Eles nos olhoram, riram, eram bem mais velhos, mas nenhum deles estava decidido como o Jaques.
Carlinho, deitado no meio dos rapazes, ergueu um pouco a cabeça e fez um sinal com a mão para Jaques e disse: — Ei, maninho! Os outros riram, debochados... um deles fez um sinal e imitou o som de uma galinha...
O sol refletia na água da sanga, forte, brilhante. Jaques entrou bem devagar, perto deles, a água chegava aos seus tornozelos; eles não viam a faca.
Carlinho apertou bem os olhos por causa do sol e chamou-o novamente de maninho, fazendo sinal para que se juntasse a eles.
Jaques acertou-o no pescoço. A faca cravada em Carlinho. Os outros rapazes começaram a gritar e chamá-lo de louco e correram como corpo de Carlinho para fora d’água... Antes de encontrar socorro, Carlinho morreu.
Todos fomos presos, mas éramos de menor. Naquela época tudo era diferente, mesmo assim nossas vidas se transformaram num inferno, menos a de Jaques.