domingo, 1 de maio de 2011

A CASA AZUL

Matheus caminhava com a cabeça baixa encostando o queixo no peito. O vento mexia o lixo espalhado na calçada. Ao longo da avenida, as prostitutas e os travestis reveza­vam-se. Um morador de rua aproximou-se. Usava uma casaco de lã rasgado... A barba não impedia de seu rosto ossudo aparecer.
­— Ei, velho — ele disse. Quase cochichava. — Tem algum dinheiro?
Matheus sentiu repugnância do homem. Acelerou o passo e deixou-o para trás, o homem ainda disse para Matheus tomar cuidado, aquelas ruas eram muito perigosas para um janota.
— Seu janota escroto! — ele gritou.
Na casa de Jane, Matheus contou a ela sobre o homem. Ao menos duas vezes na semana Ma­theus a visitava. Jane morava com o pai, um velho que fora vítima de derrame e passava a maior parte do tempo na cama. Jane deixara de trabalhar para cuidar dele. Ela trabalhava na Casa Azul onde conhecera Matheus. Alguns clientes ainda a procuravam. Matheus não se importava e também não precisava pagar nada a ela.
Antes de trabalhar na Casa Azul, Jane estivera internada em um sanatório. Tinha dezessete anos quando da internação e vinte e um ao sair definitivamente. Jane tinha um olhar triste que (que a destacava ente as outras meninas da Casa Azul. Sentada no meio das outras garotasl, sempre chamava mais a atenção.
Jane aprendeu a fazer sexo com o pai. Ele costumava amarrá-la ou esganá-la. Sempre dizia exatamente o que ela devia fazer.
Na Casa Azul, os clientes adoravam aquela submissão.
O pai de Jane a chamava inumeras vezes no quarto. Da última ela demorou mais. Matheus levantou-se e foi até a porta do quarto. A luz acesa mostrava os dois deitados, lado a lado, como dormindo.
Matheus fechou o casaco, acendeu um cigarro e saiu.
Na rua, o vento estava mais forte e gelado. Próximo dali alguns travestis faziam seu trottoir. Apesar do frio, exibiam-se apenas de lingerie. Um deles aproximou-se; não era feio e tinha um belo corpo.
— Então, papaizinho, vamos?
Matheus mexeu no dinheiro que tinha no bolso e pensou em Jane na cama com o pai. Veio a sua cabeça aquele homem chamando-o de janota.
— Como é o seu nome? — perguntou Matheus.
— Uso o nome que você quiser, meu amor.