segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

mapa do tesouro

- Um naufrágio. Sejamos civilizados... Fiz tudo o que podia: meus sentidos estão prontos para transbordar com o cheiro de teu corpo... meus olhos fechados imaginam teus lábios roçando os meus... ninguém pode impedir meus pensamentos... nem a delicadeza da tua pele... um demônio a brincar na gangorra de meu colo...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

...

Estávamos perdidos. Havia duas horas que anoitecera e ninguém sabia o que fazer.
As mulheres estavam assustadas, e choravam, e mantinham-se abraçadas... sequer erguiam as cabeças para nos olhar.
Então, reunimo-nos longe delas para discutir o que tinhamos de fazer. O horizonte, complacente, não nos dava descanso. Para todos os lados a que nos virávamos, nada havia.
"Estamos perdidos", disse José. Seus olhos estavam cheios d'água. Ele parecia-nos uma criança a chorar.
Não tinhamos o que comer nem beber. A fadiga tomava conta de nossos corpos. As crianças dormiam. Os velhos começavam a entregarem-se.
Escolhemos alguém para que seguisse o caminho. Estava com ele a possibilidade de nos salvar a todos.
Jessé sentiu-se orgulhoso de sua responsabilidade.
Partiu. Jamais voltamos a revê-lo.
Fomo morrendo gradativamente na lógica da natureza: os velhos, os fracos, as crianças.

domingo, 2 de janeiro de 2011

JÚBILO

  I

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

Alcoólicas – Hilda Hilst


Meu rosto brilhava de felicidade sabendo da espera. Quando se aceita a condi­ção de animal e não há a espectativa de que alguém possa compreender, o júbilo facilmente entorna o coração.
Como roendo e se deliciando com os ossos, olhos vítrios, o corpo líquido, a tristeza rósea da flor, o olfato não me trai, sinto o cheiro louco nas paredes, no chão, nas cortinas, no sofá, o assento magnânimo espetado no silêncio. Se estivesse nas letras de Torres, uivaria para a Lua.
Agora, apenas hóspede. Não há vazio que se preencha: o meu delírio em minhas mãos.
“Veja só, há uma semana tudo aqui é branco e frio...”
Na rua, não tenho caminho; o sangue negro. Todas as luzes apagadas, nem estrelas no céu; todos os automóveis buzinam em meus ouvidos; tu e eu; a morte é um rei que nos visita e cobre de mirra.