sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

minhas palavras
elas carregam o perfume
do teu sexo

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

CUIDE-SE

De manhã bem cedo, pouco antes de amanhecer, eu já estava arrumando as minhas coisas. Da janela era possível ver o jardim e parte da rua descendo na direção do rio.
— Você deve estar brincando — ela disse com o nenê nos braços, parada na porta do quarto.
— Você sabe que não — eu disse sem olhá-la.
— Que você vá para o inferno, então — ela disse. — Não sentiremos falta de você.
Continuei colocando as roupas de qualquer modo na mochila. Levaria o que desse.
— Filho da puta — ela disse. — Quer saber? Estou feliz por você ir embora.
No jardim, junto ao muro, havia um pequeno espaço no qual eu plantara meia duzia de pés de feijão. Eu disse a ela que logo teria de colher as vagens.
— Foda-se — ela disse.
— Cuide-se — eu disse.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

37

Hoje o sol das três da tarde
Queimando as senhoras nas ruas

Hoje o sol das três da tarde
37 graus
Uma pilha de entulhos na calçada

Hoje o sol das três da tarde
E vou deixar a barba crescer

Hoje as três da tarde
O sol brilhando
E essa saudade feito dinamite, gás lacrimogênio, golpe de faca, garganta seca, a rua lá fora, caminhões, guardas, policiais, transeuntes, palavra por palavra, cego, distorcido, assimétrico, torto,

Hoje o sol das três da tarde
37 graus —
Onde você?

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

SWEET HELL

Havia pouco mais de uma semana que ela voltara a morar com eles. Tinha sua própria cama e seu próprio quarto. Antigamente, precisava dividí-lo com os irmãos mais velhos.
Procurava todas as noite, antes de dormir, achar letras para colocar em seu diário. Elas iam se agrupando como desconhecidas-desconfiadas e formavam estranhas palavras, orações quase incompreenssíveis, frases e parágrafos desalinhados.
O diária era fechado à chave e logo na primeira página ela pedia a quem, por ventura, em acidente, o encontrásse, mantivesse segredo.
No meio do diário ela guardava uma foto recortada de uma revista, a pessoa, ela não sabia quem era, e dizia: Lydia, the tatooed lady. Mostrava uma loira, cabelos ondulados caindo pelos ombros, usava apenas soutien e tinha todo o corpo tatuado.
Ela guardara a foto por causa das tatuagens e porque também se chamava Lídia.
Lídia pegou uma canetinha hidrocor e começou a desenhar nomes de pessoas nos braços, fez todos os que lembrava. Na barriga e no peito, desenhou pessoas fazendo sexo, e pênis e vaginas, e colocou uma legenda, Na barragem.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

...

não te quero mais;
não quero mais desejar a tua boca e o teu corpo e o
teu sexo

não quero mais sentir
a ardência do amor
em meu peito
sem os teus olhos nos meus

não te quero mais;

escuta, escuta, escuta
mil vezes:
eu te
amo..................................................................
......................................................................
.......................................................................

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A FUGA

Sem pensar duas vezes, juntou todas as roupas que pode e foi, determinado, até a porta da frente. Para trás havia ficado uma meia, um calção do Inter e um lenço. Em sua determiação não voltaria para juntar as peças perdidas.
Seu rosto estava molhado de lágrimas e sentia-se a pessoa mais triste do mundo mesmo sem saber o que estava sentindo. Traído. Iria embora para morar em qualquer parte. Qualquer lugar seria melhor.
O pai ficou parado no meio da sala, olhando-o, sério. Depois, juntou as três peças e abaixou-se, ficando na altura dele.
Ele, ainda choroso, correu para os braços do pai, mas exigiu que a mãe fosse apenas namorada dele.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

TONINHO

Toninho já estava pronto havia mais de hora. Ele não queria ir. Calçava seu único par de tênis, sua calça de brim e uma camisa branca com pequenos desenhos de âncoras. Ninguém lhe dizia absolutamente nada. Nem o por quê daquilo ter acontecido, e, às vezes, ele se perguntava como podia gostar de alguém que ninguém gostava.
Seu pai tinha um velho fusca bege com estofamento negro. O rádio não funcionava e foram apenas escutando o som quase ensurdecedor do fusca.
Nas últimas doze horas Toninho acompanhou a maratona de sua mãe à procura de uma capela e toda aquela negociação com as funerárias. E ninguém falava o quanto sentiam pelo Velho.
O Velho estivera internado no Hospital do Sagrado Coração por quase uma semana, e Toninho não fora levado uma única vez para vê-lo; nesses dias, Toninho escutou antigos adjetivos sobre o Velho: o Bêbado: o Inútil: o Gigolô etc. Eles não faziam a mínima idéia de como tudo aquilo o magoava. O Velho era seu único avô e por mais que todos o odiassem, e o Velho odiava a todos, por algum motivo o Velho gostava dele...
Da capela podia-se ver o Guaíba... no final daquela manhã ele mostrava-se brilhante e parado. Eram os primeiros dias da primavera... na capela, poucas pessoas: dois irmãos do Velho, três filhos dos sete que tivera, e ele, Toninho.
Toninho sentiu medo e um enorme buraco no peito que parecia comprimir o estômago. Por quê? Por que o trouxeram ali? Ele queria ir embora, não queria vê-lo morto.
Aproximou-se do esquife sem olhá-lo. Percebeu que ninguém chorava, apenas ele. Sentou-se ali, no chão, e não conseguia para de chorar...
Foi tia Ana quem o tirou de lá, levando-o para casa.
O esquife, disseram, era o mais barato, do mesmo modo que a coroa de flores. Logo depois de colocá-lo na parede, cada um foi para o seu lado, aliviados daquela situação.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

O DEMÔNIO BRINCA COM O MEU CORPO

O Demônio brinca com o meu corpo à noite; de dia, me acompanha em silêncio. Quando as nuvens escondem a luz do sol e as sombras tomam conta da terra, meu corpo treme e posso ver seu rosto perfeito. Suas palavras penetram minha pele e sigo meu caminho sendo levado por suas mãos.
O Demônio está em meu corpo e sacio o seu desejo. Sua espada, seu gladio, seu castelo.
O Demônio, minha alma, religião, caminho, vereda, lanterna, espectro, imagem, redenção, luz.
Se Você pedir que eu beba veneno, Se Você pedir um caminho cego, Se Você pedir uma oferta, Se Você pedir uma vingança (...)
Você, meu corpo, paraíso de minha alma.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A SANGA

Um dia de sol. As ruas desertas. Jaques seguia à frente, também ele estava armado com uma faca que tinha sido de seu pai. Já fôramos tantas vezes até aquela sanga mas... Não conseguíamos falar, nem nos olhávamos. Nossa solidariedade a Jaques se mostrava cega. Tão cega quanto ele em sua decisão. Éramos amigos. Morávamos naquele lugar desde sempre.
Próximos da sanga, paramos. O sol queimava nossa pele; a terra, fervia. Eles estavam deitados na sanga. Jaques nos olhou e fez um sinal para esperarmos. Eles nos olhoram, riram, eram bem mais velhos, mas nenhum deles estava decidido como o Jaques.
Carlinho, deitado no meio dos rapazes, ergueu um pouco a cabeça e fez um sinal com a mão para Jaques e disse: — Ei, maninho! Os outros riram, debochados... um deles fez um sinal e imitou o som de uma galinha...
O sol refletia na água da sanga, forte, brilhante. Jaques entrou bem devagar, perto deles, a água chegava aos seus tornozelos; eles não viam a faca.
Carlinho apertou bem os olhos por causa do sol e chamou-o novamente de maninho, fazendo sinal para que se juntasse a eles.
Jaques acertou-o no pescoço. A faca cravada em Carlinho. Os outros rapazes começaram a gritar e chamá-lo de louco e correram como corpo de Carlinho para fora d’água... Antes de encontrar socorro, Carlinho morreu.
Todos fomos presos, mas éramos de menor. Naquela época tudo era diferente, mesmo assim nossas vidas se transformaram num inferno, menos a de Jaques.

domingo, 1 de maio de 2011

A CASA AZUL

Matheus caminhava com a cabeça baixa encostando o queixo no peito. O vento mexia o lixo espalhado na calçada. Ao longo da avenida, as prostitutas e os travestis reveza­vam-se. Um morador de rua aproximou-se. Usava uma casaco de lã rasgado... A barba não impedia de seu rosto ossudo aparecer.
­— Ei, velho — ele disse. Quase cochichava. — Tem algum dinheiro?
Matheus sentiu repugnância do homem. Acelerou o passo e deixou-o para trás, o homem ainda disse para Matheus tomar cuidado, aquelas ruas eram muito perigosas para um janota.
— Seu janota escroto! — ele gritou.
Na casa de Jane, Matheus contou a ela sobre o homem. Ao menos duas vezes na semana Ma­theus a visitava. Jane morava com o pai, um velho que fora vítima de derrame e passava a maior parte do tempo na cama. Jane deixara de trabalhar para cuidar dele. Ela trabalhava na Casa Azul onde conhecera Matheus. Alguns clientes ainda a procuravam. Matheus não se importava e também não precisava pagar nada a ela.
Antes de trabalhar na Casa Azul, Jane estivera internada em um sanatório. Tinha dezessete anos quando da internação e vinte e um ao sair definitivamente. Jane tinha um olhar triste que (que a destacava ente as outras meninas da Casa Azul. Sentada no meio das outras garotasl, sempre chamava mais a atenção.
Jane aprendeu a fazer sexo com o pai. Ele costumava amarrá-la ou esganá-la. Sempre dizia exatamente o que ela devia fazer.
Na Casa Azul, os clientes adoravam aquela submissão.
O pai de Jane a chamava inumeras vezes no quarto. Da última ela demorou mais. Matheus levantou-se e foi até a porta do quarto. A luz acesa mostrava os dois deitados, lado a lado, como dormindo.
Matheus fechou o casaco, acendeu um cigarro e saiu.
Na rua, o vento estava mais forte e gelado. Próximo dali alguns travestis faziam seu trottoir. Apesar do frio, exibiam-se apenas de lingerie. Um deles aproximou-se; não era feio e tinha um belo corpo.
— Então, papaizinho, vamos?
Matheus mexeu no dinheiro que tinha no bolso e pensou em Jane na cama com o pai. Veio a sua cabeça aquele homem chamando-o de janota.
— Como é o seu nome? — perguntou Matheus.
— Uso o nome que você quiser, meu amor.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

mapa do tesouro

- Um naufrágio. Sejamos civilizados... Fiz tudo o que podia: meus sentidos estão prontos para transbordar com o cheiro de teu corpo... meus olhos fechados imaginam teus lábios roçando os meus... ninguém pode impedir meus pensamentos... nem a delicadeza da tua pele... um demônio a brincar na gangorra de meu colo...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

...

Estávamos perdidos. Havia duas horas que anoitecera e ninguém sabia o que fazer.
As mulheres estavam assustadas, e choravam, e mantinham-se abraçadas... sequer erguiam as cabeças para nos olhar.
Então, reunimo-nos longe delas para discutir o que tinhamos de fazer. O horizonte, complacente, não nos dava descanso. Para todos os lados a que nos virávamos, nada havia.
"Estamos perdidos", disse José. Seus olhos estavam cheios d'água. Ele parecia-nos uma criança a chorar.
Não tinhamos o que comer nem beber. A fadiga tomava conta de nossos corpos. As crianças dormiam. Os velhos começavam a entregarem-se.
Escolhemos alguém para que seguisse o caminho. Estava com ele a possibilidade de nos salvar a todos.
Jessé sentiu-se orgulhoso de sua responsabilidade.
Partiu. Jamais voltamos a revê-lo.
Fomo morrendo gradativamente na lógica da natureza: os velhos, os fracos, as crianças.

domingo, 2 de janeiro de 2011

JÚBILO

  I

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

Alcoólicas – Hilda Hilst


Meu rosto brilhava de felicidade sabendo da espera. Quando se aceita a condi­ção de animal e não há a espectativa de que alguém possa compreender, o júbilo facilmente entorna o coração.
Como roendo e se deliciando com os ossos, olhos vítrios, o corpo líquido, a tristeza rósea da flor, o olfato não me trai, sinto o cheiro louco nas paredes, no chão, nas cortinas, no sofá, o assento magnânimo espetado no silêncio. Se estivesse nas letras de Torres, uivaria para a Lua.
Agora, apenas hóspede. Não há vazio que se preencha: o meu delírio em minhas mãos.
“Veja só, há uma semana tudo aqui é branco e frio...”
Na rua, não tenho caminho; o sangue negro. Todas as luzes apagadas, nem estrelas no céu; todos os automóveis buzinam em meus ouvidos; tu e eu; a morte é um rei que nos visita e cobre de mirra.