sábado, 29 de maio de 2010

dE MedOs pRecoCIS

(nos últimos dias tenho escutado sons estranhos; não posso sair sozinho. Tem sempre alguém comigo. Eu nunca tinha conhecido uma cidade tão circular quanto esta. Absurdamente os prédios vazios. Tenho certeza que estão todos cegos; os mendigos têm olhos para mim. É preciso se esconder, Julian, você tinha razão. Esta noite ninguém vai me encontrar. Só a noite e as estrelas. Só a noite e as estrelas.)...

quarta-feira, 12 de maio de 2010

FIM

Dois homens trabalhavam em meu quintal. Disseram-me ter sido contratados por mim para consertar o muro.
Eu não tenho muro em meu quintal.
Os dois usavam botas de borracha com canos altos, e chapéus, e casacos, estava chovendo havia alguns dias e eles disseram que era preciso começar logo, antes do anoitecer.
Tranquei-me em casa.
Conseguia escutá-los, e escutar as ferramentas, e a terra, e a chuva, e um deles que tossia compulsivamente, meu deus, esse homem vai adoecer. É um homem velho, vou dizer a eles que parem, voltem outro dia quando o tempo estiver melhor.
Os dois não me deram atenção. Quando estivesse pronto, me avisariam.
Permaneci no sofá, escutando o trabalho até o anoitecer; o homem mais velho bateu à porta, estava encharcado, parecia doente.
— Está pronto.
— Está pronto?
— Você pode vir, assim podemos ir embora e tudo ficará bem.
O outro segurava uma pá, estava ao lado do monte de terra.
Senti-me aliviado. Fechei os olhos, agora eles podiam ir embora.