quinta-feira, 19 de novembro de 2009

CAPITULO X

Naquele momento, tudo o que o doutor conseguia ver à sua frente eram os pezinhos dela. Na rua, um calor insuportável, todos reclamavam, mas ela parecia intacta ao clima. Sua pele era de suavidade, de uma languidez que o impressionava. A sandalinha deixava à mostra os dedinhos e as unhas bem pintadas. Era linda.
Em pé, ao lado dela, a mãe. A menina a olhava a todo instante; o doutor pediu a mãe que esperasse na recepção para que ele pudesse fazer o exame.
Thalia, sentada, as mãos sobre os joelhos, manteve os pezinhos perfilados, decididos, e não relutou.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

...

Miserável. Qualquer palavra pode ser criminosa. A tentativa de te recuperar é inútil. Agora. Mas é assim mesmo, a vida da gente torna-se pequena demais. O meu desejo é a morte. Um punhal. Consciente em relação àquilo que se crê dependente. Teu cheiro permanece em meus dedos, te pertenço como um objeto:

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

CARNAVAL

Não nos conhecíamos. O que havia de comum entre nós? Estávamos no mesmo lugar ao mesmo tempo. Bebíamos. Estávamos sozinhos.
Angélica, a dona do estabelecimento, à princípio tentou nos agradar e nos mandou algumas moças; acho que nenhum de nós disse absolutamente nada. Acho, até, que talvez fossemos mudos.
Agora nos conhecíamos; nos olhávamos no rosto um do outro. A vergonha que sentíamos era compartilhada. Angélica ficou sentada no bar. As moças que havia mandado nos entreter estavam desanimadas, sentadas a um canto.
A caixa de som tocava uma canção de carnaval.
O calor insuportável.
Dor no estômago.
Jejum.
Fizemos sinal a uma jovem ruiva, feia, muito magra, usava roupas íntimas brancas, com rendas.
A porta do quarto era uma cortina de cetim. A cama estava arru-mada com um lençol. O quarto era fedorento.
Ela tentou nos agradar. Fez um tipo de ritual. Chupou nosso pau e disse que podíamos gozar se quiséssemos.
Nosso corpo estava molhado de suor.
Tínhamos o gosto na boca da cerveja azeda.
— A cereja estava azeda — dissemos.
— Goza, goza — ela disse, bolinando nosso escroto.
Gozamos. Gozamos ao mesmo tempo. Aquela mulher era uma lou-ca, nos disse para voltarmos. Disse que tinha nos amado.
Angélica apertou nossa mão e disse que estava ao nosso dispor.
O estabelecimento continuava vazio. O bar estava vazio. As outras moças continuavam sentadas a um canto. A ruiva sentou-se junto a elas.
Na rua, cada um de nós seguiu seu caminho.
O sol estava muito forte.
Havia um clima inusitado de carnaval no ar.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

adalgisa. demorei a entender o significado de seu beijo. seu beijo que tinha a forma de minha glande. meus braços tremiam e meu corpo perdia o equilíbrio. durante meses tive saudade. essa lembrança melancólica de alguém que está distante ou ausente.
adalgisa, o gosto de sua língua não sai de meu corpo, nem o de sua vagina de minha boca.

domingo, 14 de junho de 2009

O CANIBAL DE ROTEMBURG

"Uma gaiola está sempre à procura de um pássaro."
Franz Kafka


Havia passado duas vezes em frente ao ponto do ônibus. Lembrou-se de Armin Meiwes.
A meteorologia anunciava uma semana de tempo seco e frio. O céu ainda mostrava-se escuro e as ruas ainda estavam livres.
Parou o automóvel a uns cinqüenta metros do ponto do ônibus.
Deu marcha à ré.
Ela estava sozinha.
— Estou indo para o Centro — ele disse, abrindo a porta do carona.
Ela usava um casaco preto com capuz. Carregava uma pasta e uma bolsa. Os cabelos estavam presos.
Dentro do carro, a temperatura era agradável.
Ele disse que não se acostumava de maneira alguma ao horário da manhã. Gostava de ficar na cama até bem tarde.
Ela sorriu, já se acostumara com aquilo.
Voltou a pensar em Meiwes e nas duas meninas catarinenses que aceitaram carona…
O que sempre o impressionava era o silêncio, e aquele gosto inexplicável que o estimulava a não voltar atrás.
Olhou-a pela última vez enquanto desacelerava o automóvel.

terça-feira, 26 de maio de 2009

NÃO

Todo es mentira
los álamos y las columnas se derrumban
la música desaparece de las flores
las flores desaparecen
se derrumban

LA HABITACIÓN - Ximena de Tavira


Não sinto mais o meu corpo. Nos meus pés as plantas estão cheias de bolhas. As palavras nunca significaram nada entre nós dois.
Não te sigo, não te escuto, não te tenho. Não quero que ninguém compreenda o que está acontecendo. O meu mutismo e a minha intolerância são tudo o que os outros podem ter.
Brinque comigo. Diga que pode ficar. Deixa eu ser o teu arrimo. Severino.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

...

Ontem bebi tanto que caí na rua - na verdade foi culpa de uma pedra solta na calçada - algumas pessoas me ajudaram - no muro o que me chamou a atenção foi: "Planejar o futuro é uma fuga."
Hoje, quando passei em frente, e o ônibus estava rápido demais, a frase havia desaparecido, tinta nova, ficou apenas na lembrança o trecho do poema,
ainda sinto a ressaca de teus beijos

segunda-feira, 30 de março de 2009

OS LEÕES

Os barulhos no telhado não cessam. Na cama, finjo dormir. Se eles entrarem, levam apenas a ela que está inquieta. Eu já avisei, é preciso se conformar. Ela diz que o mais assustador é o silêncio, não consegue identificar onde estão.
— Sinto vontade de morrer — ela diz, cobrindo-se até a cabeça.
Todas as noites iguais, não suporto mais.
Abro a porta e os deixo entrar.

segunda-feira, 23 de março de 2009

...

As noites me sufocam. Meu peito está retorcido. Estou perdendo cada átomo de meu corpo na necessidade do teu.
Onde a razão do teu desejo, de tuas palavras, de tua cor?
Me sinto perdido entre as estrelas:
deixa eu tocar teu rosto
deixa eu me ajoelhar a teus pés
e contemplar teu ventre dourado
e desnudar tuas coxas pros meus olhos
deixa eu beijar teus tornozelos e tua alma
deixa eu grudar meu ouvido no teu estômago
e abraçar a tua bunda
deixa eu lamber a tua virilha...
e aperta minha boca contra o teu coração
e diz: POR FAVOR ME FODE AGORA POR FAVOR.

domingo, 15 de março de 2009

...

Quanto mais sofro, mais sonho.
Deixa eu me ajoelhar em teus pés e sentir o prazer do mundo dos teus sonhos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

...

Todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade da bela mulher a qual desejamos.
Á. de A.


em pé no ônibus, ninguém tinha idéia do meu prazer. Ia sentindo o teu cheiro, o cheiro do teu corpo, o cheiro das tuas pernas, o cheiro do teu orgasmo, o cheiro da tua buceta.
Como são tristes essas pessoas.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A CAIXA DE SEGREDOS

Até onde é possível? Te esperei em silêncio, em segredo... Quero beijar os teus pés, lamber a tua resplandecente buceta; dentro dela não tenho lar nem país; nada existe, nem o céu nem as paredes que cercam a tua cama.
Me sinto um vagabundo, um viciado, querendo sentir um ponto de contato, o ponto de contato da tua pele; feito tinta na veia; ópio; eletrochoque; insônia; delírio; noites longas; meu corpo em delírio; minha mente perdida; teu corpo em meus olhos; minha noite é um coração batendo; minha noite quer te chamar mas não tem voz; minha noite se incendeia e esvazia-se até não mais sentir a carne.
Sinto falta das tuas palavras, da tua cor, do teu olhar, da ofença-severina, do teu sexo. Da tua caixinha de segredos.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

OS REIS DA FLORESTA

O que mais chamou sua atenção, além da pequena estatura, foi a agilidade dos olhares: mexiam-se sem parar.
Em algumas selvas africanas eles eram chamados de “os meninos das selvas”. Com suas pernas curtas, cabeças, bocas e narizes um pouco desproporcionais em relação ao tronco, tudo distribuído em não mais de um metro e quarenta. Nunca pensou, em tantos anos vivendo ali, que, para além daquelas árvores, folhagens e trepadeiras que delimitavam sua casa, pudessem existir choças de ramos e folhas – haveria também pirogas? – onde vivessem aqueles seres.
Da primeira vez, apareceu somente um, empunhava uma pequena lança, tendo parte do corpo coberto por uma tanga, os cabelos ralos, um pouco de barba e nada mais. Saiu e voltou rapidamente para a mata. Não houve dúvida de que ficou abismado e assustado com o que viu. O pequeno homem não o enxergou. Seus olhos perderam-se por alguns instantes entre as folhas e galhos; não acreditava, e como poderia? Talvez fosse imaginação, ou algum desconhecido perambulando desavisadamente. Em menos de vinte minutos ele trouxe outros três. Eram pigmeus. Cada um empunhava uma lança, e um deles, que parecia mais novo, um arco e algumas setas. Seus olhos e suas cabeças pareciam girar. O primeiro emitiu sons guturais enquanto apontava para a casa.
Não mais apareceram naquele dia. À noite, escutou pegadas e cochichos. Não se arriscou para a rua.
Esperou em vão no dia seguinte.
Na segunda noite, resolveu chamá-los. Montou um conjunto de lâmpadas, sendo uma delas ultravioleta, dentro de uma caixa envolvida por um pano branco. Colocou-a no meio do quintal.
No início da madrugada ainda havia algum movimento na rua, mas rapidamente o barulho cessou e começaram a surgiu dezenas de besouros e borboletas noturnas, todos procuravam as luzes. Alguns dos insetos eram de um colorido maravilhoso. Um pouco antes do amanhecer o quintal estava tomado de insetos. Resolveu desligar as luzes e voltar para casa.
O dia viera abafado. O locutor do rádio avisava sobre o calor. Antes de fazer a barba, resolveu ir até o quintal. As borboletas e os besouros gigantes haviam desaparecido. Os besouros menores espalhavam-se mortos pela terra. Observando-os é que percebeu duas armadilhas, dois buracos camuflados com ramos. Mas não havia caça para eles. Estariam entre as árvores observando?
Na África, aquelas armadilhas tinham por objetivo aprisionar animais como elefantes, hipopótamos, leopardos. Para abatê-los, usavam lanças que tinham suas pontas cobertas com veneno vegetal. Às vezes, também matavam gorilas, chamando a atenção do animal e fugindo despropositadamente. Quando um dos gorilas os alcançava, um dos pigmeus fingia uma queda e, ao mesmo tempo, firmava sua lança no solo, com a ponta à espera do gorila.
Não se sabe como aqueles pigmeus chegaram da África. Não se sabe o número preciso de pigmeus, mas conseguiu contar, antes da queda, oito homenzinhos.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

BILHETES DE AMOR

Deixou o bilhete na porta da casa. O céu incandescia de estrelas; malditas palavras:
— O mundo é pequeno demais.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O TEMPO INTERMINÁVEL DAS FORMIGAS

A janela estava fechada, mas sentado com as mãos nos joelhos, escutou quase toda a conversa entre os dois. Após um pequeno silêncio, percebeu o choro. Soluços discretos permeados por palavras de arrependimento. Algumas não entendia, outras não conseguia aplicar à prática. A situação concreta era uma peça de roupa que ele comprara para ela e ela dizia ser muito pequena e não estava de aniversário, ou coisa parecida, para ter ficado guardada em mistério. Porém, o que realmente o impressionou foram os soluços junto às súplicas. Nunca vira o pai fazer aquilo, nem imaginava que pudesse.
Ficou tentando vê-lo, aquele homem grande, forte, cabelos negros, sempre bem cortados acima das orelhas. Tinha orgulho de ser comparado a ele. Mas não lhe agradou a semelhança pelo choro. Sempre dissera que o choro devia ser deixado para as meni-nas, que o choro triste mesmo fica guardado. Esse era o choro das mulheres. O choro de sua mãe.
Levantou-se e correu para um dos cantos do pátio. Sob uma das poucas árvores ficou sentado em uma pedra. Com a ponta do dedo – antes olhou a unha, curta, suja de terra – brincou com algumas formigas, matando-as.
Não se contentou em matar uma a uma, retirar suas pequenas cargas, atrapalhar o caminho que faziam obstinadamente por entre pedrinhas, galhinhos, chumaços de capim. Começou a esmagar as que vinham da direita com a mão; com o pé, as que passavam à esquerda, afinal aquele era o seu território e ninguém mandava ou decidia mais do que ele. Viu o amontoado escuro que havia se formado a sua volta. Mas elas não desistiam, parecendo acelerar o ritmo.
O tempo interminável das formigas lhe veio à cabeça. Ele não soube o significado, coisa mais idiota essas palavras sem significado.

domingo, 4 de janeiro de 2009

TEU NOME

Sinto teu cheiro por todos os lugares que passo. Teu corpo ferve em minha lembrança. Digo teu nome? O alfabeto não suporta a ausência de tuas letras...