sexta-feira, 29 de agosto de 2008

SOBRE A TERRA SECA

Abdul. Assim o chamavam. Uma barba fina e negra cobria-lhe o rosto. Naquela noite todos já esperavam o que aconteceu. Tudo o que havia era o som longínquo do rádio e o estalar das bolas coloridas do snooker. Os amigos falavam pouco em contrapartida ao choro quase inesgotável dos eucaliptos à beira da estrada. Pelos vidros do bar, via-se pouco além do negrume da noite.
Moura esperava em um dos cantos, como se não existisse.
Atrás do balcão do bar, na parede, o relógio anunciava lentamente o tempo.
Para espanto de Cristóvam, o mais importante depois de Abdul, Moura viera sozinho, e disso tivera certeza, pois saíra para verificar.
Apesar do que estava marcado, todos mantinham respeito e aceitariam qual fosse o final. Para Cristóvam pouco interessava, porque sabia que mais cedo ou mais tarde o final era seu.
Élvio entrou repentinamente, mexendo com os olhos de Moura. Sussurrou ao ouvido de Cristóvam que Abdul aproximava-se lento, brilhando os olhos, conduzindo uma velha e ágil bicicleta. Cristóvam não reagiu. Nem Moura, porque Abdul já estava ali, e saudava os amigos, fechando um cigarro. A fumaça e o aroma, por alguns momentos, foram tudo. Abdul aproximou-se de Moura. A ânsia trespassava-lhes. Moura, antes de levantar, deixou escorrer pela manga do casaco a faca. Todos se imobilizaram. Todos desdisseram. Abdul esperou que Moura ficasse em pé. Retirou da bainha, às suas costas, a arma: reluzente. Então as luzes foram silenciadas e ninguém viu mais nada.
Abdul era preciso quanto ao nervosismo de Moura. E não podia ser diferente, ele, Abdul, era o melhor. Mas a sorte se apresentou tocando-lhe do olho esquerdo à ponta da clavícula. E não se permitiu dar ao outro o prazer de escutar sua voz. Todos, rapidamente, fugiram com seu corpo. Agora está só. Do outro lado, Moura sabe que o mesmo lhe dirá Cristóvam, que o abraçou.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

MOTO PERPÉTUO

Estávamos deitados observando as constelações. O novilúnio facilitava que o brilho das estrelas e planetas nos chegassem. Disse a ela como era importante amá-la. Ela apontou uma estrela cadente. Não podíamos nos amar, as pessoas não compreenderiam.
— O que importa? — eu disse, beijando-a nos lábios.
Desde a infância era assim, íamos para o gramado de casa e ficávamos ali, dei-tados.
Ela soube mais tarde que, logo após seu nascimento, eu a levei nos braços para ver a lua nova surgindo.
— Agora, não precisamos nos preocupar mais com os outros — eu disse.
Ela repousou a cabeça em meu braço: sim, eu tinha razão, já nos disséramos isso e, mesmo não existindo mais ninguém e concordando comigo, ela não achava certo nos amarmos assim, seria como descobrir o moto perpétuo.

domingo, 24 de agosto de 2008

A ÚLTIMA GOTA

De tanto observar as nuvens, chegou a conclusão de que tinham aquele formato devido à pressão atmosférica. E por mais que aprendesse não conseguia entender a possibilidade de algo como a lei da gravidade.
Em seu colo, o gato repousava. Vez que outra se tornava visível uma pulga correndo para se esconder melhor.
— Manguito!
Levantou a cabeça, já estava quase cochilando. Era sua mãe quem chamava. Antes de levantar-se, pegou um cigarro do bolso. Riscou o fósforo. Deu a primeira tragada.
— Venha logo, Manguito.
Colocou o gato no chão e deu uma última olhada no céu. As nuvens iam-se abrindo...
Ao entrar na cozinha, encontrou a mãe sentada à mesa com o frasco de colírio à frente. Escutou-a mandá-lo pingar duas gotas em cada olho. Disse o quanto ele estava relaxado, se ela não lembrasse ficaria cega, se dependesse dele, podia morrer ali na cozinha que ele nada faria. Tudo o que ela desejava era ter morrido primeiro que o velho. Por ele sim, todos tinham respeito.
O gato entrou correndo com uma preá sem cabeça. Manguito pensou, enquanto acendia outro cigarro, que se a mãe estivesse com os olhos abertos, se ainda pudesse ver, teria reclamado, porque o gato pulou direto em sua cama e comia as vísceras do roedor bem próximo ao seu travesseiro.
Sem olhá-la, deixando cair uma ponta de cinza no chão, ele escutou, de longe, o som de umas marteladas. O cocoricó de um galo. A surdina de uma motocicleta e o cri-cri de um gafanhoto.