domingo, 25 de maio de 2008

A VISITA

“Um relógio velho de pêndulo que há muito perdeu o ritmo
e o rumo das horas. Eis como me sinto.”

Essa terra – Antônio Torres

No bar, algumas moscas pousavam no vidro do balcão refrigerado. O ventilador girava morosamente suas pás. Roma perguntou onde ficava a casa de Cezimbra.
O homem, atrás do balcão, disse-lhe que ela e a filha moravam num casebre de quarto e sala no final da rua.
Naquela semana, Roma estivera fazendo um serviço no Colégio Louzada. Iolanda, a filha de Cezimbra, chamou-lhe a atenção porque as garotas, e a professora também, a chamavam de a indiazinha. “Sabe como são as crianças”, dissera a professora, “tanto dizem que agente acaba acostumando. A mãe dela é índia, mas ela nem parece.”
Roma, depois de arrumar alguns fios que estavam prontos a botar fogo em todo aquele madeirame velho e sem tinta, chamou-a. Ela o observou guardando as ferramentas, depois Roma segurou seus dedos. Quantos anos tinha? Onde morava?
Ao sair do bar, passando um taquaral, encontrou a casa escondida por uns pinheiros e eucaliptos.
Bateu duas vezes e Cezimbra apareceu.
— Sim senhor — ela disse.
— A senhora é a mãe de Iolanda?
Cezimbra passou os dedos grossos pelo rosto. Seus lábios, muito finos, deixaram entrever os dentes amarelados.
— Sim senhor.
No fundo do pátio, pés descalços, Iolanda dava banho em um cachorro. Os dois protegidos do sol embaixo de uma goiabeira.
Roma permaneceu próximo à porta da cozinha. Cezimbra disse a ele que podia entrar.
Mesa, quatro cadeiras, um balcão com pia e um pequeno armário. Na parede, um quadro mostrava Jesus segurando o próprio coração.
A peça do lado era separada por uma cortina de contas que deixava ver a cama e o roupeiro.
Cezimbra sentou-se à frente dele e disse que Iolanda recém fizera treze anos.
No pátio, ela brincava com o cachorro.
Cezimbra chamou a filha.
Iolanda, deixando a mangueira de lado, jorrando água, correu até eles.
Cezimbra levantou-se e disse que jamais a amara como filha.
Antes de sair para o pátio, alertou-os:
— Não demorem.

terça-feira, 20 de maio de 2008

...

T. realmente acreditei na possibilidade de mudança; e fiz você acreditar também. Agora, a vejo decepcionada, infeliz, sem esperança. Perdemos tudo e não tenho coragem de seguir adiante.
Por favor, diga aos meus pais que peço-lhes desculpas, nunca deixei de amá-los, e sinto por não lhes ter retribuído toda a confiança que sempre tiveram em mim. Tenho certeza de que eles não lhe deixarão desamparada.
(…)
Depois de tanto tempo calado, nunca senti vontade de conversar como agora. Apenas conversar.
(…)
T., não a culpo por nada nem guardo más recordações. Não sinta saudades.

P.

sábado, 17 de maio de 2008

...

Sempre acreditei ser forte o suficiente para suportar o infortúnio da perda. Menti.
A saudade não me deixa. Não consigo olhar para você nem para a minha própria imagem: tudo o que vejo é apenas dor. Não suporto mais.

N.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

...

Meu amor,
apenas eu sei o quanto é doloroso este momento. Não há mais resistência; não há mais negação nem medo, apenas fuga.
Deixo um beijo distante mas caloroso para M. e D. que levarei em meu coração para onde eu for.
Te amo muito,
G.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

...

não tive cabeça para decidir o que deixo para quem. mas levo comigo uma certeza: de que sempre te amei. a culpa, é você quem irá carregar.

do teu amor,
c.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A FLOR AZUL

“O inferno era uma casa vazia
de um outro lado do rio.”

Iniciação – Carlos Nejar

Anoitecia quando Ricardo começou a descer a pequena curva da Demétrio Ribeiro, no lado onde tivera início a demolição de uma casa velha.
O apartamento de Lúcia ficava no prédio vizinho. Era uma construção dos anos quarenta. Ela morava nos fundos.
Ricardo tocou o interfone. Surgiu uma voz quase inaudível. Sem esperar resposta, o portão foi aberto; depois, a porta do prédio.
No quarto andar, uma criança, com uns cinco anos, perguntou se já era noite. Tinha os cabelos curtos, e os olhos muito azuis.
Ele agachou-se. Ela era magra, e um pouco de olheiras começavam a mostrar-se.
— Oi? — ele disse.
— Já é noite? — ela repetiu.
Ela segurava um pequeno jacaré de pano, todo molhado.
— Qual o teu nome? — ele perguntou.
Ela mostrava um ar distante, alheio.
— A minha mãe não tá em casa.
Então aquela era a filha de Lúcia. E eram realmente parecidas. Recordava-se vagamente dela ter mencionado algo sobre a menina. Qual o nome? Olhou para o boneco.
— Ele tava mergulhando — ela disse, e afastou-se, deixando a entrada livre.
O apartamento estava no escuro e com as cortinas fechadas.
— Você sabe a que horas ela volta? — Ricardo perguntou depois de entrar, sentando-se no sofá. Na estante, do outro lado da sala, havia um pequeno gato de gesso, presente dele.
A menina não respondeu.
Ricardo acendeu um cigarro. A menina retornou para o banheiro onde brincava. Ricardo escutou-a rindo e falando sozinha.
O som das chaves trouxeram-no de volta. Lúcia parecia mais alta e magra. Ele procurou um cinzeiro e não soube, por um instante, se ficava sentado ou levantava-se. O que diria a ela?
— Resolvi dar uma passada por aqui — ele disse, levantando-se com o cigarro entre os dedos.
A menina saiu correndo do banheiro para que Lúcia a pegasse no colo. Beijaram-se e depois olharam para ele.
Ela estava mudada, ele pensou. As duas abraçavam-se como se nunca tivessem ficado distantes uma da outra. Lúcia tinha a expressão cansada, seu rosto estava um pouco enrugado.
Lúcia disse alguma coisa no ouvido da menina e largou-a. Ela correu de volta para o banheiro.
— É estranho chegar aqui e encontrar você — ela disse, e passou a mão nos cabelos, ajeitando-os. Eram castanhos muito claros e agora estavam com um corte diferente, mais curto.
— Você ficou muito bem — ele disse.
Lúcia olhou para o banheiro e depois para a cozinha.
— Veja só — ela disse — você aí me esperando e eu nem ofereço um café. Continuo a mesma.
Ricardo quase disse que alguns meses não mudavam ninguém, mas certamente ela diria que não eram apenas alguns meses: cada mês valia um ano pelo menos.
No banheiro, a menina continuava falando sozinha.
— Ela me recebeu como se fosse uma adulta — ele disse.
Lúcia voltou a mexer nos cabelos, parecia desarrumá-los para arrumá-los novamente.
— Ela é um amor — disse. — Viu como se parece comigo? Menos os olhos… Às vezes tenho vontade de arrancá-los e guardar juntos numa caixinha. Eles parecem brilhar, não?
Ele concordou, de fato eram lindos.
Lúcia entrou na cozinha e acendeu a luz, deixando-o na penumbra. Pegou o bule e o saco para o café. Colocou o pó, a água no fogo, separou as xícaras e o açúcar. Depois levou tudo numa bandeja. Ricardo continuava em pé, agora segurando a ponta do cigarro com a mão direita e as cinzas na outra.
— Eu não encontrei o cinzeiro — ele disse, mostrando-lhe o cigarro e as cinzas.
Lúcia largou a bandeja no sofá e pegou o cinzeiro guardado dentro da estante.
— Eu não fumo mais — ela disse. — Por causa da criança.
— Senti saudades.
Lúcia serviu-se do açúcar.
— Você está morando com ele?
— Não. Nunca morei com ele…
O café estava frio.
— Aquilo foi uma loucura, nunca devia ter acontecido… Foi uma loucura.
Ricardo falava sentindo piedade de si mesmo. Pegou outro cigarro. Lúcia estava no contraluz da cozinha… Por Deus, sentia uma vontade enlouquecida de agarrá-la e beijá-la… “Agora você vai começar a colecionar homens?” ela dissera… Eram palavras que ainda estavam presentes no jeito dela tomar café, na intensidade da luz, no riso da criança, no cigarro apagado entre seus dedos.
— Aquilo foi uma loucura — ele disse.
Ela pegou a bandeja e levou de volta para a cozinha. Despejou o café na pia e começou a lavar a louça.
A menina apareceu na porta do banheiro, o jacaré estava encharcado, pingava no chão e em seus pés.
Ricardo guardou o cigarro e foi embora.