quarta-feira, 23 de abril de 2008

VOZES

Distante estrela cadente
Cicatriz rasgada na noite

Sam Shepard – O punho do céu

Roendo unha. Se dissesse qualquer coisa apanhava. A tv, o som quase no máximo. Às vezes recebia chinelada nas pernas:
— Me deixa nervosa assim roendo a unha sem parar.
Ela parava. As mãos escondidas.
No colégio, a professora levava ela para falar com a diretora. A diretora chamava a mãe. Assim repete o ano de novo, ela dizia.
A mãe: — Não sei o quanto vou agüentar, enlouqueço...
Quando a mãe recebia visita de amigo nem falava com ela. Unhas pintadas, cerveja, gargalhadas. Tinha de ficar trancada no quarto até o dia seguinte.
De manhã, tomando café sozinha, entrou um dos amigos de sua mãe na cozinha. Pés descalços, só de cueca, no peito uma tatuagem em forma de serpente.
Sem dizer nada, bebeu água no bico da garrafa. Aproximou-se dela. Bem de perto, olhou dentro de sua xícara, depois lhe segurou o queixo e beijou-a. A boca fria.
— Eu podia ser o seu novo pai, não é?
Ela, imóvel.
— Não é? — ele disse.
— É — ela disse.
Do quarto, a mãe o chamou.
— Que idade você tem? — ele perguntou, colocando a mão dentro de seu short.
Os lábios secos, grudados: — Onze.
— A tua mãe está velha... Safada, mas está velha.
Beijou-a novamente.
— Não aperta as pernas que é pior.
Do quarto a mãe gritou por ele novamente.
Com a outra mão ele baixou um pouco a cueca e mostrou.
A mãe apareceu na cozinha, mas ele já estava saindo. Ela não disse nada. Na sala os dois cochichando.
De noite, quando a mãe dormia, ele zanzava pela casa, no escuro. Ela escutava o barulho na geladeira, a descarga no banheiro, a água correndo na pia. De manhã ele contava que dormira mal, calor demais, tinha de lavar o rosto, o corpo. A mãe perguntava se ela não era suficiente para ele. Ele sorria. Suficiente?
A mãe, irritada, mandava a guria para a rua e gritava lá dentro, não sou suficiente? Era só o que me faltava. Quem mais você quer?
Depois ele saía até o pátio. Camiseta pendurada no ombro, as mãos dentro do short. Cabelos um pouco despenteados. Sentava ao lado dela.
— Os teus pés estão sujos, não quer lavar?
A mãe na janela da cozinha, bebendo água.
Levantou-se e pegou-a na mão, levando-a ao tanque. Abriu a torneira.
— Você é toda limpinha, não pode ficar com os pés empoeirados assim. Já pensou?
Pegou-a no colo, pondo-a sentada na beira do tanque, os pés debaixo da torneira. Deixou a água correndo. Molhava os joelhos, as canelas.
— Já pensou? — ele disse.

Na volta do colégio, a casa vazia. Tarde da noite os dois chegaram bêbados. Direto para o quarto. A mãe quase inconsciente na cama.
Ela não pregou o olho a noite inteira.
Seis horas e o dia começava a aparecer.
As frinchas da veneziana iam se desenhado de luz na parede, no forro.
Vestindo o chambre da mãe, apertou-a na cama.
Na rua, barulho.

Os três tomando café da manhã juntos. Com displicência, ele ia juntando os farelos ao lado da xícara. Os olhos inchados, ainda vermelhos. Era bom ou não tê-lo na casa? Levantou-se e foi para o quarto, queria dormir mais um pouco.
A mãe ficou parada olhando-a. Começou a limpar a mesa. Pigarreou. Colocou a louça na pia. De costas, disse:
— Não tem aula hoje? Vai ficar aí feito idiota?

sexta-feira, 18 de abril de 2008

AS NUVENS

Havíamos caminhado a manhã toda. As solas dos meus pés estavam ardendo e tinha a impressão de tê-los cheios de bolhas.
Pedi para descasar um pouco.
Nos sentamos na sombra de um guapuruvú.
Ao sairmos pela manhã, não havíamos comido nada. Eu começava a me sentir tonto, enjoado, mas não diria a ela. No máximo, que estava com sede.
Todas as casas daquela rua nos pareciam vazias. Nas árvores, o silêncio.
Ela escorou-se em um portão e bateu palmas. Uma velha apareceu. Ela pediu água. A velha nos trouxe uma jarra e um copo.
— Ele está com muita sede. É um mole…
A velha ficou quieta. Tive certeza de não ter olhado para mim.
Bebi dois copos.
— Nossa — ela disse. Mas sem admiração nenhuma.
Fiquei parado com o copo na mão.
— Você quer mais? — disse a velha.
— Está bom assim. Ele não é de muita água.
E tirou o copo da minha mão, devolvendo-o à velha.
— Vamos, agradece — ela disse, me empurrando.
— Obrigado.
Tudo o que levávamos era uma sacola onde aparecia escrito: Lembrança do Rio Grande do Sul.
Ultimamente ela vivia dizendo que eu estava muito magro. Tinha as orelhas abertas demais e aquilo me deixava parecido com o meu pai. Eu sabia disso. Uma vez ela me disse o quanto me odiava. Disse para que eu jamais esquecer.
Não precisava ver, mas ela estava chorando. Seguia alguns passos a minha frente. Tínhamos de ir. E por mais que me odiasse nunca me deixava para trás.
Jamais esqueci da beleza do Guaíba, e daquelas nuvens que se modelavam impassíveis acima de nossas cabeças.
Eu também a odiava.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O VERÃO ESTÁ CHEGANDO

O Paulo era o último, e demorava mais do que os outros. Tinha ficado para mim a tarefa de vigia. Por isso fora o primeiro.
Combináramos que se acontecesse alguma coisa, qualquer coisa, fugiríamos todos.
Eram poucos os lugares que podiam estar a nossa disposição e era a primeira vez que passávamos a noite fora. Por andarmos sempre juntos, os adultos já nem ligavam mais por onde andávamos. Nunca saíamos de nosso bairro. Mesmo que às vezes os limites dele nos estimulasse a ir além.
Paulo nos dissera que precisávamos de algo diferente, chegava de ficarmos pendurados nos plátanos feito macacos, assobiando e mexendo com as gurias que passavam.
Naquela noite, encontráramos Lisboa; ela era uma guria feia. Tinha a pele branca demais e seu rosto era apenas a imitação do que deveria ser; em suas costas, algumas cicatrizes de queimaduras.
Naquela noite, encontráramos Lisboa; ela era uma guria feia. Tinha a pele branca demais e seu rosto era apenas a imitação do que deveria ser; em suas costas, algumas cicatrizes de queimaduras.
A idéia de amarrá-la foi de Paulo. Ele vivia dizendo sentir nojo dela. Quando Paulo lhe fez a proposta em troca do pouco dinheiro que ainda tínhamos, ela apenas pediu para que não fosse amarrada com tanta força… Éramos todos garotos. Lisboa tinha uns três ou cinco anos a mais.
Havíamos zanzado horas bebendo o que de mais ordinária encontráramos.
Os bailes aconteciam mesmo contra a vontade dos que desejavam apenas descansar.
Sentamos no meio-fio do outro lado da rua onde acontecia uma dessas festas. As pessoas falavam alto e dançavam; pelas janelas víamos a fumaça e muitos casais abraçados, beijando-se.
Lisboa estava próxima a uma das janelas, sozinha. Foi quando Paulo levantou-se.
— Lisboa — ele disse, e acenou-lhe para que saísse .
A boca pálida, os ombros e o colo de fora, suados, ela ficou parada a nossa frente..
— A festa não está boa? — ele perguntou.
Ela usava um sapatinho preto de fivela, bem desbotado.
Era uma noite muito bonita e parecia a primeira.
— Estou um pouco cansada — ela disse. — Nunca vi vocês a essa hora na rua.
Paulo ofereceu-lhe a garrafa. Ela disse que já havia bebido demais.
— Ora, só mais um gole.
Então, apenas molhou a boca…
Era muito ruim, e muito forte.
Fomos todos juntos até o campo de futebol improvisado entre os eucaliptos. As estrelas choviam sua claridade a nossa volta.
Com nossas calças, amarramos os pulsos e os tornozelos dela. Seu corpo fora deitado sobre suas próprias roupas. Lisboa tinha o rosto redondo, e os seios, que jamais havíamos visto tão lindos e próximos, eram pequenos e seus bicos pareciam denunciar nossos nomes.
Ela permaneceu em silêncio, víamos apenas sua respiração, quase úmida, quase desaparecendo naquela madrugada de domingo.
Paulo deixou-a com os tornozelos e pulsos desamarrados; os braços e as pernas moles, como fazendo parte daquela terra, daquele capim, daquele verão que se aproximava.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

A CAIXA DE SEGREDOS

“... invencível desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana.”.
Machado de Assis – Esaú e Jacó

Há histórias que não deveríamos contar. Esta é uma delas.