domingo, 30 de março de 2008

FELICIA

Valmir me disse que a polícia havia chegado no colégio há pouco mais de meia hora. Muitos pais acumulavam-se na frente do portão. Ninguém sabia ao certo o que acontecera.
- Estão dizendo que uma aluna encontrou o corpo de uma garota lá nos fundos - disse Valmir.
- E conhecem? - perguntei, enquanto observava a polícia isolando o local.
- Não disseram nada, ainda.
Caminhei para o meio das pessoas. Falavam em estupro, assalto, e diziam que talvez o nome dela fosse Carla ou Janine. Voltei para junto do Valmir.
- Que porcaria, heim?
Valmir pegou um cigarro, oferecendo-me outro. Fumamos encostados no muro de sua casa, bem em frente ao colégio.
- Vou pegar uma cerveja - ele disse, entrando.
Voltei para o meio dos curiosos. Parei ao lado de uma menina que parecia estudar ali. Ela tentava enxergar alguma coisa entre os adultos.
- Você sabe o que aconteceu? - perguntei.
- Uma colega minha encontrou o corpo de uma mulher - ela disse. - Tem um corte no pescoço.
- Não sabem que é ela?
Me olhou, parecendo me conhecer.
- Não - respondeu.
Valmir me esperava com a cerveja.
- E aí, descobriu alguma coisa?
- Degolada - eu disse.
Valmir quis saber se a garota era bonita.
- Não sei, não vi o corpo.
Ele riu. Sempre falava que eu era sortudo, as mulheres bonitas simpatizavam comigo. Coincidência, eu dizia.
Um bom tempo depois, chegou a caminhonete do IML.
- Acho que vão trazer o corpo - Valmir disse, esticando o pescoço. - Vamos lá, vamos ver se a gente conhece ela - e saiu na frente.
Eu sabia que se olhasse o corpo enjoaria ali mesmo. As pessoas reclamavam da falta de segurança. Concordei. Ficamos parados, próximos a alguns policiais. Um deles disse que alguém reconhecera o corpo, e talvez o nome dela fosse Felícia. Os dois riram achando engraçado o nome. Senti vontade de pular neles. Não tinham o direito de gozar do nome de uma pessoa morta.
- Felícia? - o Valmir sussurrou ao meu lado. - Não é... - interrompi, puxando-o para longe dos policiais. Ele insistiu: - Mas não é o nome da tua namorada?
- É - respondi. - Mas é outra.
- Precisamos ver o corpo para ter certeza...
- Você está bêbado. É outra.
Fomos nos afastando. Não queria chamar a atenção de ninguém, principalmente dos policiais.
Saí sem dizer mais nada. Felícia é um nome estranho.
As pessoas viviam dizendo isso a ela. Mas um nome estranho em uma pessoa bonita como ela deixava de ser estranho e passava a ser diferente. No entanto, a beleza tem os seus problemas, todas as pessoas têm problemas, por que eu seria diferente?

sábado, 22 de março de 2008

FELICIDADE

Fechou a porta cuidadosamente. Na cozinha estava a mãe; o pai, no banheiro, onde o som da água corria suave. Aquela idéia não lhe saía da cabeça e não houve outra maneira de tirá-la. Abriu o roupeiro, deslizou a mão entre os montes de blusões até encontrar o desenho de sua imaginação. Puxou. Sentado na ponta da cama, admirou-a: imensamente bonita, ali, em suas mãos, pesada e tranqüila. Não tinha muito tempo e foi logo desmuniciando-a com os dedos medrosos que pareciam flutuar ao contato do tambor e da coronha.
- Carlos! - a mãe gritou.
Rápido, guardou a arma. A mãe abriu a porta, pegando-o sério, estático e fez um movimento de olhos como procurando algo. Carlos saiu do quarto direto para a rua, sem dizer nada. Pulou no cinamomo de onde não pretendia descer tão cedo. De lá, observava os telhados, as pessoas na rua, os carros... Ninguém o tiraria dali.
- Carlos - disse o pai. - Desce já daí.
No chão, dissimulou, querendo saber o que se passava. O pai segurou-o no braço sem controlar a força e perguntou qual era o seu objetivo, o que pretendia mexendo no revólver. Carregou-o para dentro de casa. No quarto, Carlos viu os cartuchos na cama. O revólver estava na penteadeira. Da porta, a mãe o olhava. O pai mandou-a sair.
Carlos sentiu muita dor em todo o corpo, por todos os lugares e, de costas, escutou o pai abrindo e fechando o roupeiro. Com aquela voz que repentinamente surgira estranha, disse para nunca mais fazer aquilo. Depois, Carlos sentiu o calor de seu corpo: ele também era imensamente bonito.

sexta-feira, 21 de março de 2008

ORGULHO

Carlinhos tinha fechado todas as janelas da casa, e a porta à chave. As crianças estavam sentadas no pátio, caladas. Só o mais velho é que não conseguia ficar parado. Ia até a calçada e voltava. Pegou algumas pedras e depois largou-as ao ver-me.
- O que aconteceu? - perguntei.
Ficou quieto, mexendo nas pedras com o pé.
- Onde está a tua mãe? - insisti.
- Ainda não chegou - ele disse, cochichando e agora sem olhar-me.
- Por que você está falando assim?
Fez um sinal para a casa: - Ele não quer barulho nenhum.
Estava uma tarde muito ensolarada e o céu de uma leveza quase inacreditável: o silêncio mais absoluto possível.
Volta e meia Carlinhos colocava a mulher e as crianças para correr. Dormia por uma horas e acordava-se regenerado. Muitas vezes pegava a bicicleta e ia pescar; sentia-se um homem melhor botando ordem na casa...
Algumas vezes ele batia na mulher e nas crianças, depois passava um ou dois dias fora. Voltava sentindo-se melhor. Ele me disse uma vez que o homem não é nada se não consegue controlar o próprio direito de ir e vir. Tinha orgulho daquilo e esperava que os filhos, principalmente o mais velho, aprendesse a ter o mesmo sentimento.
Quando voltei, eles continuavam ali, na rua, quase nos mesmos lugares, e mais duas viaturas da polícia.
O guri, ao enxergar-me, correu na minha direção.
- Ele se matou.
- O quê?
- Ele se matou.
Disse isso e voltou sem pressa para o meio dos irmãos.
A mulher falava com os policiais. Nunca haviamos conversado... era muito tímida... envergonhava-se de Carlinhos e dos filhos e de viver numa casa tão pequena e desconfortável e ter de trabalhar como doméstica. Era o que Carlinhos contava. Por isso tinha de controlar a situação. Foi o que ele fez.

domingo, 16 de março de 2008

PRIMEIRO AMOR

As crianças brincavam na calçada. A mãe chamou por ele. Ela estava mais bonita do que das outras vezes: a blusa, de alça, deixava à mostra o delicado contorno das clavículas, o colo... Sorriu e disse que voltava o quanto antes e detestava deixá-lo sozinho. Ele observou-a passando entre as outras crianças que não sabiam como era amar naquela idade.

sábado, 15 de março de 2008

SEGREDO

A nossa principal diferença era o tamanho. E a força. Quase morri, mas ele ganhou. Depois, vomitei atrás da casa. De noite, sonhei com o poder que algumas pessoas têm sobre as outras. E o gosto do corpo dele.

sexta-feira, 7 de março de 2008

(A caixa de segredos.)

quarta-feira, 5 de março de 2008

PIMENTEL

Sinto um cheiro de álcool no ar. Parece um convite, a mão estendida. Mas hoje levantei-me determinado à resistência, apenas fumarei meu Pimentel sentado no jardim contando quantas pessoas ficarão me observando e amaldiçoando o aroma forte e agressivo de meu Pimentel.
No fim somos todos da mesma carne, movidos pelo desejo que nos faz girar o mundo atrás do gosto de uma boca mimosa
.

segunda-feira, 3 de março de 2008

VICENTINHO

O martírio. Chegava em casa, ela sempre do mesmo jeito: calada, o olhar inexpressivo. Já nem perguntava mais.
Cafajeste.
Ela, um fantasma. De madrugada ficava em pé com o menino no colo, chorando.
Sentia vontade de morrer.
Não voltar mais para casa.
Chegou trazendo uma tortinha de bombom que ela sempre gostou. Serviu uma fatia e ajoelhou-se na frente dela. Com a ponta do garfinho, tirou um pedaço, um pedaço com bombom. O menino no berço. Aquele silêncio horrível.
Ela comeu o pedaço; o rosto vermelho.
- Então?
- É bom - ela disse, olhando o pratinho.
Sentou-se ao lado dela e ligaram a tv; o som alto agitou o menino. Ela levantou-se e pegou-o no colo, abraçando-o bem junto ao corpo, era tão grande que não parecia um recém nascido.

Com o pratinho na mão, olhando a tv, terminou de comer a tortinha, sozinho... deliciosa.