sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

TRINTA E CINCO GRAUS

Os vizinhos da casa ao lado trouxeram consigo duas jovens, somando as idades não deviam ter mais de trinta.
As duas montaram uma piscina de plástico no pátio. Antes de entrarem, escaldaram-se com bronzeador. Ligaram o rádio e, entre muitas risadas, deitaram-se na água morna.
Chico Picadinho era um homem regenerado.
Sentou-se na porta da cozinha, acendeu um cigarro e fumou tranqüilamente. Depois de todos aqueles anos preso, não acreditava que pudesse encontrar alguém que o aceitasse. Era um homem feio, ignorante, e a sociedade não tolera o seu tipo de crime.
Chico Picadinho tinha certeza, naquela tarde, ensolarada, de que uma pessoa igual a ele jamais deveria ficar solta, andar livremente nas ruas. Sentia desejo de maldade.
Trinta e cinco graus. E não havia ocasião melhor.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

HELLO KITTY

Ficava por piedade no terceiro andar da Casa Paraíso. Depois de todas as outras, era a última a ser escolhida.
De bruços na cama, as vértebras pontilhavam suas costas. Os lábios eram muito pintados; as unhas, de tanto roê-las, sangravam...
Sempre pensava nas outras. Sempre pensava em quem desejava ser.