quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

SONHO

Hipócrates acreditava na possibilidade em diagnosticar um paciente através dos odores de sua boca.
Ninguém é maior testemunha do que o silêncio.
Pode um cego sonhar com as mãos de Deus?

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

[SILÊNCIO]

Sentado, contando os passos dela. Do meu cigarro, o prazer; dela, a necessidade. Meus olhos, assim, tão ardentes?
Não me enxerga.
Distante, o motor de um avião. Das folhas das árvores, a imagem do vento.
Caminhando, conto os passos dela.
Ninguém nos enxerga.
Silêncio.

domingo, 16 de novembro de 2008

A ÚLTIMA VISITA

Compulsivamente, seguia limpando tudo o que encontrava à sua frente. Sentia-se de-cepcionada. Apenas isso. Tudo excessivamente recolocado em seus lugares. Não havia necessidade em nada daquilo. Ela sabia disso.
Sentou-se no degrau da porta. O combinado era o de chegaram antes das oito ho-ras. Antes do anoitecer. Faltavam dez minutos. Aquela pontualidade era insuportavel-mente exagerada. Por quê?
Tinha convicção de que falhara a vida inteira. Não eram dez minutos, e sim dez anos.
Não conseguira escrever mais do que dez linhas. Falou individualmente a cada um. Pediu desculpas e disse que passara a vida toda sentindo medo. De todos os defei-tos, o que mais a incomodava, e não conseguia mudá-lo, era o orgulho. Desejava que nenhum deles puxasse a ela.
Deixou a porta destrancada. A carta, na mesinha ao lado da porta. Trancada no quarto, deixou de esperar.

sábado, 27 de setembro de 2008

AS MÃOS GORDINHAS, O CABELO PINTADO

As mãos gordinhas, o cabelo pintado. Ajudava aos clientes da agência no manuseio dos caixas eletrônicos.
— Não sei para que tantas senhas — ele disse.
O sorriso dela era inigualável. Perguntou-lhe a que horas saía. Ali perto, um bar, muito discreto.
— Não posso aceitar convite de clientes — ela disse.
— Espero lá fora.
Na esquina do banco havia um posto de gasolina. Chateou um pouco os frentistas. Ao vê-la sair, fez-lhe um sinal.
Ela caminhava delicadamente nos saltinhos.
Seguiram em silencio até o bar. A rua, uma transversal da Pernambuco, via-se ainda um trecho da Farrapos. Muito arborizado aquele pedaço do bairro. Segurava as mãos nos bolsos, havia de controlar-se. O desejo era tê-la naquele instante. Contava demais os dias esperando aquele momento. Muita angústia.
No bar, sentaram-se junto a uma janela. O dia abafado. Ela disse que morava longe, estava tentando trocar de agência.
Tomou dois copos de cerveja: — Estou um pouco nervosa — admitiu.
Ele pegou-a na mão, suava, beijou-lhe os dedos, as unhas à francesinha. Fazia a mesma coisa nos pés? Queria vê-los, ali mesmo, que tirasse os sapatos; ergueu a ponta da toalha da mesa; ela mostrou o pezinho: — Lindo de mais, não? — ele disse.
Fez sinal para o garçom. Deixou boa gorjeta. Na porta do prédio, ela disse que era a primeira vez. No corredor, suava no rosto, no pescoço, resistiu um pouco. Ele puxou-a para escada, o apartamento muito longe, abriu a calça: — Você está louco — ela disse.
No prédio, o corredor sempre uma penumbra.
— Um inferno — ela disse. — Você é um diabo.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

BILHETES DE AMOR

Deixou uma rosa na porta. O céu não estava estrelado; no bilhete, malditas palavras criminosas, simplesmente dizia que a amava: - O mundo é pequeno demais.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

...

No espelho, via apenas a própria raiva. Tirou o canino e guardou-o no bolso. Foi o tempo suficiente para se atirar no outro.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

SOBRE A TERRA SECA

Abdul. Assim o chamavam. Uma barba fina e negra cobria-lhe o rosto. Naquela noite todos já esperavam o que aconteceu. Tudo o que havia era o som longínquo do rádio e o estalar das bolas coloridas do snooker. Os amigos falavam pouco em contrapartida ao choro quase inesgotável dos eucaliptos à beira da estrada. Pelos vidros do bar, via-se pouco além do negrume da noite.
Moura esperava em um dos cantos, como se não existisse.
Atrás do balcão do bar, na parede, o relógio anunciava lentamente o tempo.
Para espanto de Cristóvam, o mais importante depois de Abdul, Moura viera sozinho, e disso tivera certeza, pois saíra para verificar.
Apesar do que estava marcado, todos mantinham respeito e aceitariam qual fosse o final. Para Cristóvam pouco interessava, porque sabia que mais cedo ou mais tarde o final era seu.
Élvio entrou repentinamente, mexendo com os olhos de Moura. Sussurrou ao ouvido de Cristóvam que Abdul aproximava-se lento, brilhando os olhos, conduzindo uma velha e ágil bicicleta. Cristóvam não reagiu. Nem Moura, porque Abdul já estava ali, e saudava os amigos, fechando um cigarro. A fumaça e o aroma, por alguns momentos, foram tudo. Abdul aproximou-se de Moura. A ânsia trespassava-lhes. Moura, antes de levantar, deixou escorrer pela manga do casaco a faca. Todos se imobilizaram. Todos desdisseram. Abdul esperou que Moura ficasse em pé. Retirou da bainha, às suas costas, a arma: reluzente. Então as luzes foram silenciadas e ninguém viu mais nada.
Abdul era preciso quanto ao nervosismo de Moura. E não podia ser diferente, ele, Abdul, era o melhor. Mas a sorte se apresentou tocando-lhe do olho esquerdo à ponta da clavícula. E não se permitiu dar ao outro o prazer de escutar sua voz. Todos, rapidamente, fugiram com seu corpo. Agora está só. Do outro lado, Moura sabe que o mesmo lhe dirá Cristóvam, que o abraçou.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

MOTO PERPÉTUO

Estávamos deitados observando as constelações. O novilúnio facilitava que o brilho das estrelas e planetas nos chegassem. Disse a ela como era importante amá-la. Ela apontou uma estrela cadente. Não podíamos nos amar, as pessoas não compreenderiam.
— O que importa? — eu disse, beijando-a nos lábios.
Desde a infância era assim, íamos para o gramado de casa e ficávamos ali, dei-tados.
Ela soube mais tarde que, logo após seu nascimento, eu a levei nos braços para ver a lua nova surgindo.
— Agora, não precisamos nos preocupar mais com os outros — eu disse.
Ela repousou a cabeça em meu braço: sim, eu tinha razão, já nos disséramos isso e, mesmo não existindo mais ninguém e concordando comigo, ela não achava certo nos amarmos assim, seria como descobrir o moto perpétuo.

domingo, 24 de agosto de 2008

A ÚLTIMA GOTA

De tanto observar as nuvens, chegou a conclusão de que tinham aquele formato devido à pressão atmosférica. E por mais que aprendesse não conseguia entender a possibilidade de algo como a lei da gravidade.
Em seu colo, o gato repousava. Vez que outra se tornava visível uma pulga correndo para se esconder melhor.
— Manguito!
Levantou a cabeça, já estava quase cochilando. Era sua mãe quem chamava. Antes de levantar-se, pegou um cigarro do bolso. Riscou o fósforo. Deu a primeira tragada.
— Venha logo, Manguito.
Colocou o gato no chão e deu uma última olhada no céu. As nuvens iam-se abrindo...
Ao entrar na cozinha, encontrou a mãe sentada à mesa com o frasco de colírio à frente. Escutou-a mandá-lo pingar duas gotas em cada olho. Disse o quanto ele estava relaxado, se ela não lembrasse ficaria cega, se dependesse dele, podia morrer ali na cozinha que ele nada faria. Tudo o que ela desejava era ter morrido primeiro que o velho. Por ele sim, todos tinham respeito.
O gato entrou correndo com uma preá sem cabeça. Manguito pensou, enquanto acendia outro cigarro, que se a mãe estivesse com os olhos abertos, se ainda pudesse ver, teria reclamado, porque o gato pulou direto em sua cama e comia as vísceras do roedor bem próximo ao seu travesseiro.
Sem olhá-la, deixando cair uma ponta de cinza no chão, ele escutou, de longe, o som de umas marteladas. O cocoricó de um galo. A surdina de uma motocicleta e o cri-cri de um gafanhoto.

terça-feira, 15 de julho de 2008

A ÚLTIMA CARTA

Espero que você jamais tenha paz.

Tânia

terça-feira, 24 de junho de 2008

...

Nunca pensei que o amor pudesse nos causar tamanha tristeza, infelicidade.
Estou te escrevendo nesta bela noite de outono. Há a previsão de um inverno muito rigoroso este ano. Certa vez eu li que a palavra amor tem em sua origem o significado de capturar ou ser capturado. Inúmeras vezes agi feito um criminoso te ofendendo com minhas palavras. Te subestimando. Cego em minha própria ignorância; confiante do meu conhecimento. Ignorei por completo o quanto estive capturado por teu amor. E nunca observei o quanto meu amor feria o teu. Agora estou mastigando a minha própria solidão e saudade.
O covarde diante o inevitável nunca sabe o que fazer e toma a decisão errada.
Peço que me seja preservado o direito de não ser visto por ninguém de nossa família depois que abrirem esta porta. Todas as providências que deviam ser tomadas, já as tomei.
Nunca aceitei a fatalidade.

Com amor,
A.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

...

Após 68 anos juntos, como poderia ser diferente?
Minha querida, não há outra possibilidade -
Eu te amo.

Teu
L.

domingo, 25 de maio de 2008

A VISITA

“Um relógio velho de pêndulo que há muito perdeu o ritmo
e o rumo das horas. Eis como me sinto.”

Essa terra – Antônio Torres

No bar, algumas moscas pousavam no vidro do balcão refrigerado. O ventilador girava morosamente suas pás. Roma perguntou onde ficava a casa de Cezimbra.
O homem, atrás do balcão, disse-lhe que ela e a filha moravam num casebre de quarto e sala no final da rua.
Naquela semana, Roma estivera fazendo um serviço no Colégio Louzada. Iolanda, a filha de Cezimbra, chamou-lhe a atenção porque as garotas, e a professora também, a chamavam de a indiazinha. “Sabe como são as crianças”, dissera a professora, “tanto dizem que agente acaba acostumando. A mãe dela é índia, mas ela nem parece.”
Roma, depois de arrumar alguns fios que estavam prontos a botar fogo em todo aquele madeirame velho e sem tinta, chamou-a. Ela o observou guardando as ferramentas, depois Roma segurou seus dedos. Quantos anos tinha? Onde morava?
Ao sair do bar, passando um taquaral, encontrou a casa escondida por uns pinheiros e eucaliptos.
Bateu duas vezes e Cezimbra apareceu.
— Sim senhor — ela disse.
— A senhora é a mãe de Iolanda?
Cezimbra passou os dedos grossos pelo rosto. Seus lábios, muito finos, deixaram entrever os dentes amarelados.
— Sim senhor.
No fundo do pátio, pés descalços, Iolanda dava banho em um cachorro. Os dois protegidos do sol embaixo de uma goiabeira.
Roma permaneceu próximo à porta da cozinha. Cezimbra disse a ele que podia entrar.
Mesa, quatro cadeiras, um balcão com pia e um pequeno armário. Na parede, um quadro mostrava Jesus segurando o próprio coração.
A peça do lado era separada por uma cortina de contas que deixava ver a cama e o roupeiro.
Cezimbra sentou-se à frente dele e disse que Iolanda recém fizera treze anos.
No pátio, ela brincava com o cachorro.
Cezimbra chamou a filha.
Iolanda, deixando a mangueira de lado, jorrando água, correu até eles.
Cezimbra levantou-se e disse que jamais a amara como filha.
Antes de sair para o pátio, alertou-os:
— Não demorem.

terça-feira, 20 de maio de 2008

...

T. realmente acreditei na possibilidade de mudança; e fiz você acreditar também. Agora, a vejo decepcionada, infeliz, sem esperança. Perdemos tudo e não tenho coragem de seguir adiante.
Por favor, diga aos meus pais que peço-lhes desculpas, nunca deixei de amá-los, e sinto por não lhes ter retribuído toda a confiança que sempre tiveram em mim. Tenho certeza de que eles não lhe deixarão desamparada.
(…)
Depois de tanto tempo calado, nunca senti vontade de conversar como agora. Apenas conversar.
(…)
T., não a culpo por nada nem guardo más recordações. Não sinta saudades.

P.

sábado, 17 de maio de 2008

...

Sempre acreditei ser forte o suficiente para suportar o infortúnio da perda. Menti.
A saudade não me deixa. Não consigo olhar para você nem para a minha própria imagem: tudo o que vejo é apenas dor. Não suporto mais.

N.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

...

Meu amor,
apenas eu sei o quanto é doloroso este momento. Não há mais resistência; não há mais negação nem medo, apenas fuga.
Deixo um beijo distante mas caloroso para M. e D. que levarei em meu coração para onde eu for.
Te amo muito,
G.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

...

não tive cabeça para decidir o que deixo para quem. mas levo comigo uma certeza: de que sempre te amei. a culpa, é você quem irá carregar.

do teu amor,
c.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A FLOR AZUL

“O inferno era uma casa vazia
de um outro lado do rio.”

Iniciação – Carlos Nejar

Anoitecia quando Ricardo começou a descer a pequena curva da Demétrio Ribeiro, no lado onde tivera início a demolição de uma casa velha.
O apartamento de Lúcia ficava no prédio vizinho. Era uma construção dos anos quarenta. Ela morava nos fundos.
Ricardo tocou o interfone. Surgiu uma voz quase inaudível. Sem esperar resposta, o portão foi aberto; depois, a porta do prédio.
No quarto andar, uma criança, com uns cinco anos, perguntou se já era noite. Tinha os cabelos curtos, e os olhos muito azuis.
Ele agachou-se. Ela era magra, e um pouco de olheiras começavam a mostrar-se.
— Oi? — ele disse.
— Já é noite? — ela repetiu.
Ela segurava um pequeno jacaré de pano, todo molhado.
— Qual o teu nome? — ele perguntou.
Ela mostrava um ar distante, alheio.
— A minha mãe não tá em casa.
Então aquela era a filha de Lúcia. E eram realmente parecidas. Recordava-se vagamente dela ter mencionado algo sobre a menina. Qual o nome? Olhou para o boneco.
— Ele tava mergulhando — ela disse, e afastou-se, deixando a entrada livre.
O apartamento estava no escuro e com as cortinas fechadas.
— Você sabe a que horas ela volta? — Ricardo perguntou depois de entrar, sentando-se no sofá. Na estante, do outro lado da sala, havia um pequeno gato de gesso, presente dele.
A menina não respondeu.
Ricardo acendeu um cigarro. A menina retornou para o banheiro onde brincava. Ricardo escutou-a rindo e falando sozinha.
O som das chaves trouxeram-no de volta. Lúcia parecia mais alta e magra. Ele procurou um cinzeiro e não soube, por um instante, se ficava sentado ou levantava-se. O que diria a ela?
— Resolvi dar uma passada por aqui — ele disse, levantando-se com o cigarro entre os dedos.
A menina saiu correndo do banheiro para que Lúcia a pegasse no colo. Beijaram-se e depois olharam para ele.
Ela estava mudada, ele pensou. As duas abraçavam-se como se nunca tivessem ficado distantes uma da outra. Lúcia tinha a expressão cansada, seu rosto estava um pouco enrugado.
Lúcia disse alguma coisa no ouvido da menina e largou-a. Ela correu de volta para o banheiro.
— É estranho chegar aqui e encontrar você — ela disse, e passou a mão nos cabelos, ajeitando-os. Eram castanhos muito claros e agora estavam com um corte diferente, mais curto.
— Você ficou muito bem — ele disse.
Lúcia olhou para o banheiro e depois para a cozinha.
— Veja só — ela disse — você aí me esperando e eu nem ofereço um café. Continuo a mesma.
Ricardo quase disse que alguns meses não mudavam ninguém, mas certamente ela diria que não eram apenas alguns meses: cada mês valia um ano pelo menos.
No banheiro, a menina continuava falando sozinha.
— Ela me recebeu como se fosse uma adulta — ele disse.
Lúcia voltou a mexer nos cabelos, parecia desarrumá-los para arrumá-los novamente.
— Ela é um amor — disse. — Viu como se parece comigo? Menos os olhos… Às vezes tenho vontade de arrancá-los e guardar juntos numa caixinha. Eles parecem brilhar, não?
Ele concordou, de fato eram lindos.
Lúcia entrou na cozinha e acendeu a luz, deixando-o na penumbra. Pegou o bule e o saco para o café. Colocou o pó, a água no fogo, separou as xícaras e o açúcar. Depois levou tudo numa bandeja. Ricardo continuava em pé, agora segurando a ponta do cigarro com a mão direita e as cinzas na outra.
— Eu não encontrei o cinzeiro — ele disse, mostrando-lhe o cigarro e as cinzas.
Lúcia largou a bandeja no sofá e pegou o cinzeiro guardado dentro da estante.
— Eu não fumo mais — ela disse. — Por causa da criança.
— Senti saudades.
Lúcia serviu-se do açúcar.
— Você está morando com ele?
— Não. Nunca morei com ele…
O café estava frio.
— Aquilo foi uma loucura, nunca devia ter acontecido… Foi uma loucura.
Ricardo falava sentindo piedade de si mesmo. Pegou outro cigarro. Lúcia estava no contraluz da cozinha… Por Deus, sentia uma vontade enlouquecida de agarrá-la e beijá-la… “Agora você vai começar a colecionar homens?” ela dissera… Eram palavras que ainda estavam presentes no jeito dela tomar café, na intensidade da luz, no riso da criança, no cigarro apagado entre seus dedos.
— Aquilo foi uma loucura — ele disse.
Ela pegou a bandeja e levou de volta para a cozinha. Despejou o café na pia e começou a lavar a louça.
A menina apareceu na porta do banheiro, o jacaré estava encharcado, pingava no chão e em seus pés.
Ricardo guardou o cigarro e foi embora.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

VOZES

Distante estrela cadente
Cicatriz rasgada na noite

Sam Shepard – O punho do céu

Roendo unha. Se dissesse qualquer coisa apanhava. A tv, o som quase no máximo. Às vezes recebia chinelada nas pernas:
— Me deixa nervosa assim roendo a unha sem parar.
Ela parava. As mãos escondidas.
No colégio, a professora levava ela para falar com a diretora. A diretora chamava a mãe. Assim repete o ano de novo, ela dizia.
A mãe: — Não sei o quanto vou agüentar, enlouqueço...
Quando a mãe recebia visita de amigo nem falava com ela. Unhas pintadas, cerveja, gargalhadas. Tinha de ficar trancada no quarto até o dia seguinte.
De manhã, tomando café sozinha, entrou um dos amigos de sua mãe na cozinha. Pés descalços, só de cueca, no peito uma tatuagem em forma de serpente.
Sem dizer nada, bebeu água no bico da garrafa. Aproximou-se dela. Bem de perto, olhou dentro de sua xícara, depois lhe segurou o queixo e beijou-a. A boca fria.
— Eu podia ser o seu novo pai, não é?
Ela, imóvel.
— Não é? — ele disse.
— É — ela disse.
Do quarto, a mãe o chamou.
— Que idade você tem? — ele perguntou, colocando a mão dentro de seu short.
Os lábios secos, grudados: — Onze.
— A tua mãe está velha... Safada, mas está velha.
Beijou-a novamente.
— Não aperta as pernas que é pior.
Do quarto a mãe gritou por ele novamente.
Com a outra mão ele baixou um pouco a cueca e mostrou.
A mãe apareceu na cozinha, mas ele já estava saindo. Ela não disse nada. Na sala os dois cochichando.
De noite, quando a mãe dormia, ele zanzava pela casa, no escuro. Ela escutava o barulho na geladeira, a descarga no banheiro, a água correndo na pia. De manhã ele contava que dormira mal, calor demais, tinha de lavar o rosto, o corpo. A mãe perguntava se ela não era suficiente para ele. Ele sorria. Suficiente?
A mãe, irritada, mandava a guria para a rua e gritava lá dentro, não sou suficiente? Era só o que me faltava. Quem mais você quer?
Depois ele saía até o pátio. Camiseta pendurada no ombro, as mãos dentro do short. Cabelos um pouco despenteados. Sentava ao lado dela.
— Os teus pés estão sujos, não quer lavar?
A mãe na janela da cozinha, bebendo água.
Levantou-se e pegou-a na mão, levando-a ao tanque. Abriu a torneira.
— Você é toda limpinha, não pode ficar com os pés empoeirados assim. Já pensou?
Pegou-a no colo, pondo-a sentada na beira do tanque, os pés debaixo da torneira. Deixou a água correndo. Molhava os joelhos, as canelas.
— Já pensou? — ele disse.

Na volta do colégio, a casa vazia. Tarde da noite os dois chegaram bêbados. Direto para o quarto. A mãe quase inconsciente na cama.
Ela não pregou o olho a noite inteira.
Seis horas e o dia começava a aparecer.
As frinchas da veneziana iam se desenhado de luz na parede, no forro.
Vestindo o chambre da mãe, apertou-a na cama.
Na rua, barulho.

Os três tomando café da manhã juntos. Com displicência, ele ia juntando os farelos ao lado da xícara. Os olhos inchados, ainda vermelhos. Era bom ou não tê-lo na casa? Levantou-se e foi para o quarto, queria dormir mais um pouco.
A mãe ficou parada olhando-a. Começou a limpar a mesa. Pigarreou. Colocou a louça na pia. De costas, disse:
— Não tem aula hoje? Vai ficar aí feito idiota?

sexta-feira, 18 de abril de 2008

AS NUVENS

Havíamos caminhado a manhã toda. As solas dos meus pés estavam ardendo e tinha a impressão de tê-los cheios de bolhas.
Pedi para descasar um pouco.
Nos sentamos na sombra de um guapuruvú.
Ao sairmos pela manhã, não havíamos comido nada. Eu começava a me sentir tonto, enjoado, mas não diria a ela. No máximo, que estava com sede.
Todas as casas daquela rua nos pareciam vazias. Nas árvores, o silêncio.
Ela escorou-se em um portão e bateu palmas. Uma velha apareceu. Ela pediu água. A velha nos trouxe uma jarra e um copo.
— Ele está com muita sede. É um mole…
A velha ficou quieta. Tive certeza de não ter olhado para mim.
Bebi dois copos.
— Nossa — ela disse. Mas sem admiração nenhuma.
Fiquei parado com o copo na mão.
— Você quer mais? — disse a velha.
— Está bom assim. Ele não é de muita água.
E tirou o copo da minha mão, devolvendo-o à velha.
— Vamos, agradece — ela disse, me empurrando.
— Obrigado.
Tudo o que levávamos era uma sacola onde aparecia escrito: Lembrança do Rio Grande do Sul.
Ultimamente ela vivia dizendo que eu estava muito magro. Tinha as orelhas abertas demais e aquilo me deixava parecido com o meu pai. Eu sabia disso. Uma vez ela me disse o quanto me odiava. Disse para que eu jamais esquecer.
Não precisava ver, mas ela estava chorando. Seguia alguns passos a minha frente. Tínhamos de ir. E por mais que me odiasse nunca me deixava para trás.
Jamais esqueci da beleza do Guaíba, e daquelas nuvens que se modelavam impassíveis acima de nossas cabeças.
Eu também a odiava.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O VERÃO ESTÁ CHEGANDO

O Paulo era o último, e demorava mais do que os outros. Tinha ficado para mim a tarefa de vigia. Por isso fora o primeiro.
Combináramos que se acontecesse alguma coisa, qualquer coisa, fugiríamos todos.
Eram poucos os lugares que podiam estar a nossa disposição e era a primeira vez que passávamos a noite fora. Por andarmos sempre juntos, os adultos já nem ligavam mais por onde andávamos. Nunca saíamos de nosso bairro. Mesmo que às vezes os limites dele nos estimulasse a ir além.
Paulo nos dissera que precisávamos de algo diferente, chegava de ficarmos pendurados nos plátanos feito macacos, assobiando e mexendo com as gurias que passavam.
Naquela noite, encontráramos Lisboa; ela era uma guria feia. Tinha a pele branca demais e seu rosto era apenas a imitação do que deveria ser; em suas costas, algumas cicatrizes de queimaduras.
Naquela noite, encontráramos Lisboa; ela era uma guria feia. Tinha a pele branca demais e seu rosto era apenas a imitação do que deveria ser; em suas costas, algumas cicatrizes de queimaduras.
A idéia de amarrá-la foi de Paulo. Ele vivia dizendo sentir nojo dela. Quando Paulo lhe fez a proposta em troca do pouco dinheiro que ainda tínhamos, ela apenas pediu para que não fosse amarrada com tanta força… Éramos todos garotos. Lisboa tinha uns três ou cinco anos a mais.
Havíamos zanzado horas bebendo o que de mais ordinária encontráramos.
Os bailes aconteciam mesmo contra a vontade dos que desejavam apenas descansar.
Sentamos no meio-fio do outro lado da rua onde acontecia uma dessas festas. As pessoas falavam alto e dançavam; pelas janelas víamos a fumaça e muitos casais abraçados, beijando-se.
Lisboa estava próxima a uma das janelas, sozinha. Foi quando Paulo levantou-se.
— Lisboa — ele disse, e acenou-lhe para que saísse .
A boca pálida, os ombros e o colo de fora, suados, ela ficou parada a nossa frente..
— A festa não está boa? — ele perguntou.
Ela usava um sapatinho preto de fivela, bem desbotado.
Era uma noite muito bonita e parecia a primeira.
— Estou um pouco cansada — ela disse. — Nunca vi vocês a essa hora na rua.
Paulo ofereceu-lhe a garrafa. Ela disse que já havia bebido demais.
— Ora, só mais um gole.
Então, apenas molhou a boca…
Era muito ruim, e muito forte.
Fomos todos juntos até o campo de futebol improvisado entre os eucaliptos. As estrelas choviam sua claridade a nossa volta.
Com nossas calças, amarramos os pulsos e os tornozelos dela. Seu corpo fora deitado sobre suas próprias roupas. Lisboa tinha o rosto redondo, e os seios, que jamais havíamos visto tão lindos e próximos, eram pequenos e seus bicos pareciam denunciar nossos nomes.
Ela permaneceu em silêncio, víamos apenas sua respiração, quase úmida, quase desaparecendo naquela madrugada de domingo.
Paulo deixou-a com os tornozelos e pulsos desamarrados; os braços e as pernas moles, como fazendo parte daquela terra, daquele capim, daquele verão que se aproximava.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

A CAIXA DE SEGREDOS

“... invencível desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana.”.
Machado de Assis – Esaú e Jacó

Há histórias que não deveríamos contar. Esta é uma delas.

domingo, 30 de março de 2008

FELICIA

Valmir me disse que a polícia havia chegado no colégio há pouco mais de meia hora. Muitos pais acumulavam-se na frente do portão. Ninguém sabia ao certo o que acontecera.
- Estão dizendo que uma aluna encontrou o corpo de uma garota lá nos fundos - disse Valmir.
- E conhecem? - perguntei, enquanto observava a polícia isolando o local.
- Não disseram nada, ainda.
Caminhei para o meio das pessoas. Falavam em estupro, assalto, e diziam que talvez o nome dela fosse Carla ou Janine. Voltei para junto do Valmir.
- Que porcaria, heim?
Valmir pegou um cigarro, oferecendo-me outro. Fumamos encostados no muro de sua casa, bem em frente ao colégio.
- Vou pegar uma cerveja - ele disse, entrando.
Voltei para o meio dos curiosos. Parei ao lado de uma menina que parecia estudar ali. Ela tentava enxergar alguma coisa entre os adultos.
- Você sabe o que aconteceu? - perguntei.
- Uma colega minha encontrou o corpo de uma mulher - ela disse. - Tem um corte no pescoço.
- Não sabem que é ela?
Me olhou, parecendo me conhecer.
- Não - respondeu.
Valmir me esperava com a cerveja.
- E aí, descobriu alguma coisa?
- Degolada - eu disse.
Valmir quis saber se a garota era bonita.
- Não sei, não vi o corpo.
Ele riu. Sempre falava que eu era sortudo, as mulheres bonitas simpatizavam comigo. Coincidência, eu dizia.
Um bom tempo depois, chegou a caminhonete do IML.
- Acho que vão trazer o corpo - Valmir disse, esticando o pescoço. - Vamos lá, vamos ver se a gente conhece ela - e saiu na frente.
Eu sabia que se olhasse o corpo enjoaria ali mesmo. As pessoas reclamavam da falta de segurança. Concordei. Ficamos parados, próximos a alguns policiais. Um deles disse que alguém reconhecera o corpo, e talvez o nome dela fosse Felícia. Os dois riram achando engraçado o nome. Senti vontade de pular neles. Não tinham o direito de gozar do nome de uma pessoa morta.
- Felícia? - o Valmir sussurrou ao meu lado. - Não é... - interrompi, puxando-o para longe dos policiais. Ele insistiu: - Mas não é o nome da tua namorada?
- É - respondi. - Mas é outra.
- Precisamos ver o corpo para ter certeza...
- Você está bêbado. É outra.
Fomos nos afastando. Não queria chamar a atenção de ninguém, principalmente dos policiais.
Saí sem dizer mais nada. Felícia é um nome estranho.
As pessoas viviam dizendo isso a ela. Mas um nome estranho em uma pessoa bonita como ela deixava de ser estranho e passava a ser diferente. No entanto, a beleza tem os seus problemas, todas as pessoas têm problemas, por que eu seria diferente?

sábado, 22 de março de 2008

FELICIDADE

Fechou a porta cuidadosamente. Na cozinha estava a mãe; o pai, no banheiro, onde o som da água corria suave. Aquela idéia não lhe saía da cabeça e não houve outra maneira de tirá-la. Abriu o roupeiro, deslizou a mão entre os montes de blusões até encontrar o desenho de sua imaginação. Puxou. Sentado na ponta da cama, admirou-a: imensamente bonita, ali, em suas mãos, pesada e tranqüila. Não tinha muito tempo e foi logo desmuniciando-a com os dedos medrosos que pareciam flutuar ao contato do tambor e da coronha.
- Carlos! - a mãe gritou.
Rápido, guardou a arma. A mãe abriu a porta, pegando-o sério, estático e fez um movimento de olhos como procurando algo. Carlos saiu do quarto direto para a rua, sem dizer nada. Pulou no cinamomo de onde não pretendia descer tão cedo. De lá, observava os telhados, as pessoas na rua, os carros... Ninguém o tiraria dali.
- Carlos - disse o pai. - Desce já daí.
No chão, dissimulou, querendo saber o que se passava. O pai segurou-o no braço sem controlar a força e perguntou qual era o seu objetivo, o que pretendia mexendo no revólver. Carregou-o para dentro de casa. No quarto, Carlos viu os cartuchos na cama. O revólver estava na penteadeira. Da porta, a mãe o olhava. O pai mandou-a sair.
Carlos sentiu muita dor em todo o corpo, por todos os lugares e, de costas, escutou o pai abrindo e fechando o roupeiro. Com aquela voz que repentinamente surgira estranha, disse para nunca mais fazer aquilo. Depois, Carlos sentiu o calor de seu corpo: ele também era imensamente bonito.

sexta-feira, 21 de março de 2008

ORGULHO

Carlinhos tinha fechado todas as janelas da casa, e a porta à chave. As crianças estavam sentadas no pátio, caladas. Só o mais velho é que não conseguia ficar parado. Ia até a calçada e voltava. Pegou algumas pedras e depois largou-as ao ver-me.
- O que aconteceu? - perguntei.
Ficou quieto, mexendo nas pedras com o pé.
- Onde está a tua mãe? - insisti.
- Ainda não chegou - ele disse, cochichando e agora sem olhar-me.
- Por que você está falando assim?
Fez um sinal para a casa: - Ele não quer barulho nenhum.
Estava uma tarde muito ensolarada e o céu de uma leveza quase inacreditável: o silêncio mais absoluto possível.
Volta e meia Carlinhos colocava a mulher e as crianças para correr. Dormia por uma horas e acordava-se regenerado. Muitas vezes pegava a bicicleta e ia pescar; sentia-se um homem melhor botando ordem na casa...
Algumas vezes ele batia na mulher e nas crianças, depois passava um ou dois dias fora. Voltava sentindo-se melhor. Ele me disse uma vez que o homem não é nada se não consegue controlar o próprio direito de ir e vir. Tinha orgulho daquilo e esperava que os filhos, principalmente o mais velho, aprendesse a ter o mesmo sentimento.
Quando voltei, eles continuavam ali, na rua, quase nos mesmos lugares, e mais duas viaturas da polícia.
O guri, ao enxergar-me, correu na minha direção.
- Ele se matou.
- O quê?
- Ele se matou.
Disse isso e voltou sem pressa para o meio dos irmãos.
A mulher falava com os policiais. Nunca haviamos conversado... era muito tímida... envergonhava-se de Carlinhos e dos filhos e de viver numa casa tão pequena e desconfortável e ter de trabalhar como doméstica. Era o que Carlinhos contava. Por isso tinha de controlar a situação. Foi o que ele fez.

domingo, 16 de março de 2008

PRIMEIRO AMOR

As crianças brincavam na calçada. A mãe chamou por ele. Ela estava mais bonita do que das outras vezes: a blusa, de alça, deixava à mostra o delicado contorno das clavículas, o colo... Sorriu e disse que voltava o quanto antes e detestava deixá-lo sozinho. Ele observou-a passando entre as outras crianças que não sabiam como era amar naquela idade.

sábado, 15 de março de 2008

SEGREDO

A nossa principal diferença era o tamanho. E a força. Quase morri, mas ele ganhou. Depois, vomitei atrás da casa. De noite, sonhei com o poder que algumas pessoas têm sobre as outras. E o gosto do corpo dele.

sexta-feira, 7 de março de 2008

(A caixa de segredos.)

quarta-feira, 5 de março de 2008

PIMENTEL

Sinto um cheiro de álcool no ar. Parece um convite, a mão estendida. Mas hoje levantei-me determinado à resistência, apenas fumarei meu Pimentel sentado no jardim contando quantas pessoas ficarão me observando e amaldiçoando o aroma forte e agressivo de meu Pimentel.
No fim somos todos da mesma carne, movidos pelo desejo que nos faz girar o mundo atrás do gosto de uma boca mimosa
.

segunda-feira, 3 de março de 2008

VICENTINHO

O martírio. Chegava em casa, ela sempre do mesmo jeito: calada, o olhar inexpressivo. Já nem perguntava mais.
Cafajeste.
Ela, um fantasma. De madrugada ficava em pé com o menino no colo, chorando.
Sentia vontade de morrer.
Não voltar mais para casa.
Chegou trazendo uma tortinha de bombom que ela sempre gostou. Serviu uma fatia e ajoelhou-se na frente dela. Com a ponta do garfinho, tirou um pedaço, um pedaço com bombom. O menino no berço. Aquele silêncio horrível.
Ela comeu o pedaço; o rosto vermelho.
- Então?
- É bom - ela disse, olhando o pratinho.
Sentou-se ao lado dela e ligaram a tv; o som alto agitou o menino. Ela levantou-se e pegou-o no colo, abraçando-o bem junto ao corpo, era tão grande que não parecia um recém nascido.

Com o pratinho na mão, olhando a tv, terminou de comer a tortinha, sozinho... deliciosa.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

TRINTA E CINCO GRAUS

Os vizinhos da casa ao lado trouxeram consigo duas jovens, somando as idades não deviam ter mais de trinta.
As duas montaram uma piscina de plástico no pátio. Antes de entrarem, escaldaram-se com bronzeador. Ligaram o rádio e, entre muitas risadas, deitaram-se na água morna.
Chico Picadinho era um homem regenerado.
Sentou-se na porta da cozinha, acendeu um cigarro e fumou tranqüilamente. Depois de todos aqueles anos preso, não acreditava que pudesse encontrar alguém que o aceitasse. Era um homem feio, ignorante, e a sociedade não tolera o seu tipo de crime.
Chico Picadinho tinha certeza, naquela tarde, ensolarada, de que uma pessoa igual a ele jamais deveria ficar solta, andar livremente nas ruas. Sentia desejo de maldade.
Trinta e cinco graus. E não havia ocasião melhor.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

HELLO KITTY

Ficava por piedade no terceiro andar da Casa Paraíso. Depois de todas as outras, era a última a ser escolhida.
De bruços na cama, as vértebras pontilhavam suas costas. Os lábios eram muito pintados; as unhas, de tanto roê-las, sangravam...
Sempre pensava nas outras. Sempre pensava em quem desejava ser.