terça-feira, 20 de outubro de 2009

G.I.S.A.

Miserável. Qualquer palavra pode ser criminosa. A tentativa de te recuperar é inútil. Agora. Mas é assim mesmo, a vida da gente torna-se pequena demais. O meu desejo é a morte. Um punhal. Consciente em relação àquilo que se crê dependente. Teu cheiro permanece em meus dedos, te pertenço como um objeto:

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

CARNAVAL

Não nos conhecíamos. O que havia de comum entre nós? Estávamos no mesmo lugar ao mesmo tempo. Bebíamos. Estávamos sozinhos.
Angélica, a dona do estabelecimento, à princípio tentou nos agradar e nos mandou algumas moças; acho que nenhum de nós disse absolutamente nada. Acho, até, que talvez fossemos mudos.
Agora nos conhecíamos; nos olhávamos no rosto um do outro. A vergonha que sentíamos era compartilhada. Angélica ficou sentada no bar. As moças que havia mandado nos entreter estavam desanimadas, sentadas a um canto.
A caixa de som tocava uma canção de carnaval.
O calor insuportável.
Dor no estômago.
Jejum.
Fizemos sinal a uma jovem ruiva, feia, muito magra, usava roupas íntimas brancas, com rendas.
A porta do quarto era uma cortina de cetim. A cama estava arru-mada com um lençol. O quarto era fedorento.
Ela tentou nos agradar. Fez um tipo de ritual. Chupou nosso pau e disse que podíamos gozar se quiséssemos.
Nosso corpo estava molhado de suor.
Tínhamos o gosto na boca da cerveja azeda.
— A cereja estava azeda — dissemos.
— Goza, goza — ela disse, bolinando nosso escroto.
Gozamos. Gozamos ao mesmo tempo. Aquela mulher era uma lou-ca, nos disse para voltarmos. Disse que tinha nos amado.
Angélica apertou nossa mão e disse que estava ao nosso dispor.
O estabelecimento continuava vazio. O bar estava vazio. As outras moças continuavam sentadas a um canto. A ruiva sentou-se junto a elas.
Na rua, cada um de nós seguiu seu caminho.
O sol estava muito forte.
Havia um clima inusitado de carnaval no ar.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

adalgisa. demorei a entender o significado de seu beijo. seu beijo que tinha a forma de minha glande. meus braços tremiam e meu corpo perdia o equilíbrio. durante meses tive saudade. essa lembrança melancólica de alguém que está distante ou ausente.
adalgisa, o gosto de sua língua não sai de meu corpo, nem o de sua vagina de minha boca.

domingo, 14 de junho de 2009

O CANIBAL DE ROTEMBURG

"Uma gaiola está sempre à procura de um pássaro."
Franz Kafka


Havia passado duas vezes em frente ao ponto do ônibus. Lembrou-se de Armin Meiwes.
A meteorologia anunciava uma semana de tempo seco e frio. O céu ainda mostrava-se escuro e as ruas ainda estavam livres.
Parou o automóvel a uns cinqüenta metros do ponto do ônibus.
Deu marcha à ré.
Ela estava sozinha.
— Estou indo para o Centro — ele disse, abrindo a porta do carona.
Ela usava um casaco preto com capuz. Carregava uma pasta e uma bolsa. Os cabelos estavam presos.
Dentro do carro, a temperatura era agradável.
Ele disse que não se acostumava de maneira alguma ao horário da manhã. Gostava de ficar na cama até bem tarde.
Ela sorriu, já se acostumara com aquilo.
Voltou a pensar em Meiwes e nas duas meninas catarinenses que aceitaram carona…
O que sempre o impressionava era o silêncio, e aquele gosto inexplicável que o estimulava a não voltar atrás.
Olhou-a pela última vez enquanto desacelerava o automóvel.

terça-feira, 26 de maio de 2009

NÃO

Todo es mentira
los álamos y las columnas se derrumban
la música desaparece de las flores
las flores desaparecen
se derrumban

LA HABITACIÓN - Ximena de Tavira


Não sinto mais o meu corpo. Nos meus pés as plantas estão cheias de bolhas. As palavras nunca significaram nada entre nós dois.
Não te sigo, não te escuto, não te tenho. Não quero que ninguém compreenda o que está acontecendo. O meu mutismo e a minha intolerância são tudo o que os outros podem ter.
Brinque comigo. Diga que pode ficar. Deixa eu ser o teu arrimo. Severino.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

...

Ontem bebi tanto que caí na rua - na verdade foi culpa de uma pedra solta na calçada - algumas pessoas me ajudaram - no muro o que me chamou a atenção foi: "Planejar o futuro é uma fuga."
Hoje, quando passei em frente, e o ônibus estava rápido demais, a frase havia desaparecido, tinta nova, ficou apenas na lembrança o trecho do poema,
ainda sinto a ressaca de teus beijos

segunda-feira, 30 de março de 2009

OS LEÕES

Os barulhos no telhado não cessam. Na cama, finjo dormir. Se eles entrarem, levam apenas a ela que está inquieta. Eu já avisei, é preciso se conformar. Ela diz que o mais assustador é o silêncio, não consegue identificar onde estão.
— Sinto vontade de morrer — ela diz, cobrindo-se até a cabeça.
Todas as noites iguais, não suporto mais.
Abro a porta e os deixo entrar.

segunda-feira, 23 de março de 2009

...

As noites me sufocam. Meu peito está retorcido. Estou perdendo cada átomo de meu corpo na necessidade do teu.
Onde a razão do teu desejo, de tuas palavras, de tua cor?
Me sinto perdido entre as estrelas:
deixa eu tocar teu rosto
deixa eu me ajoelhar a teus pés
e contemplar teu ventre dourado
e desnudar tuas coxas pros meus olhos
deixa eu beijar teus tornozelos e tua alma
deixa eu grudar meu ouvido no teu estômago
e abraçar a tua bunda
deixa eu lamber a tua virilha...
e aperta minha boca contra o teu coração
e diz: POR FAVOR ME FODE AGORA POR FAVOR.

domingo, 15 de março de 2009

...

Quanto mais sofro, mais sonho.
Deixa eu me ajoelhar em teus pés e sentir o prazer do mundo dos teus sonhos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

...

Todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade da bela mulher a qual desejamos.
Á. de A.


em pé no ônibus, ninguém tinha idéia do meu prazer. Ia sentindo o teu cheiro, o cheiro do teu corpo, o cheiro das tuas pernas, o cheiro do teu orgasmo, o cheiro da tua buceta.
Como são tristes essas pessoas.